Sergi Lopez em ''Um Amigo de Todas as Horas''
Esquisita, a idéia que o diretor Dominic Moll teve para fazer seu segundo longa-metragem que estreou anteontem na mostra competitiva do 53º Festival de Cannes. Segundo declarou abrindo a coletiva de imprensa, estava de férias, numa rodovia no interior da França, com a mulher e dois filhos pequenos. Calor, irritação das crianças, tráfego intenso, enfado. Cabeça funcionando em viagem profunda e pronto, lá estava delineado o argumento de Harry, Un Ami que Vous Veu du Bien - a melhor tradução no Brasil seria Um Amigo de Todas as Horas, para ficar dentro do espírito de fina ironia do original. Ou Com um Amigo Assim, Quem Precisa de Inimigos ?, como nossos marketólogos travestidos de tradutores funcionariam.
Não é uma comédia, é bom que se diga, embora como todo thriller eficiente não prescinda de muitas pitadas de humor negro, na antiga e venerável tradição do gênero. O Harry do título (o espanhol Sergi Lopez, de Western) é o inesperado ex-colega de outros tempos, de ótima memória, de quem Michel (Laurent Lucas) já nem se lembrava mais. Os dois se encontram num banheiro de posto de beira de estrada. Harry é muito rico, está gastando a fortuna do pai levando a namorada Prune (Sophie Guillemin) para a Suíça. Michel é classe média, está indo com a mulher Claire (Mathilde Seigner) e as três filhas para uma casa que ainda estão construindo. Harry se insinua, se mostra prestativo, um verdadeiro anjo bom que caiu do céu para ajudar. Leva as crianças para o ar condicionado da Mercedes, se oferece para passar a noite na casa inacabada com Michel e a família. Aos poucos se sabe que há cerca de 20 anos, desde a adolescência, no colégio, Harry sempre teve muito apego a Michel - sabe de cor os poemas que o outro escreveu na publicação da escola.
O diretor Dominic Moll, obviamente no rastro hitchcockiano, trabalha bem todas as possibilidades de contrastes e confrontos entre os personagens, segredos, motivações, medos interiores. É um jogo interessante, o que se estabelece entre o filme e o espectador. A tensão ora está na tela, ora passa para platéia. Não há obviedades, e o que parece muitas vezes previsível de fato acontece, mas por outros caminhos. Harry afinal é um sociopata, e perigoso. Para ele, cada problema tem sua solução. Não solução paliativa, mas uma que elimine realmente o problema. É um personagem sincero, ama de fato Michel. Não é atração homossexual, é uma verdadeira, profunda admiração pelo Michel aprendiz de escritor, especificamente por um poema que impressionou Harry a ponto de levá-lo pela vida na ponta da língua. A grande frustração de Harry é que o amigo deixou de escrever, o que para ele é inaceitável. É preciso, portanto, abrir caminho a qualquer custo para que Michel reencontre paz e sossego e retome a literatura. No fundo e afinal, o bizarro estímulo de Harry para que Michel volte a escrever propicia o melhor ponto de discussão e de reflexão deste filme insinuante: a criação artística, com seus limites, suas crises, seus impasses.





