Crianças de ontem e de hoje, quanta diferença! Televisão, computador, Internet, conhecimento mais acessível, método de ensino com foco na prática da experiência vivida e, é claro, o doutor Freud e suas descobertas sobre o funcionamento do psiquismo humano deram o tom e o ritmo das mudanças ocorridas entre as últimas gerações. As crianças do mundo atual dão valor à infância, entendendo que é algo que passa, e rápido. Por isso, tratam de aproveitá-la, observando o mundo adulto com olhar crítico, de forma a, quando chegar a sua vez, quem sabe conseguir modificá-lo. (A.S.)
''Ser criança é muito bom'', afirma Levi, com a sabedoria de quem teve a oportunidade de brincar e de estudar bastante ao longo de seus 10 anos de vida. Mas, observando as dificuldades enfrentadas pelos adultos em seu cotidiano, trata logo de acrescentar que ''ser criança é bom porque a gente não precisa trabalhar e ainda mora em casa de graça''. Seguindo essa linha de raciocínio, Marina complementa que bom mesmo é ''não precisar ficar se preocupando em pagar contas''. Melhor ainda, de acordo com Ana Júlia, é ''poder gastar a mesada, não com compras de mercado, mas com bobagem''. Contudo, como conclui João Vítor, o melhor é tratar de aproveitar integralmente essa fase, ''para não se queixar, mais tarde, de que não teve infância''.
Como as crianças dão especial valor ao momento que estão vivendo, a preocupação com quem não tem as mesmas oportunidades é grande. ''Criança trabalhar não dá certo'', afirma Camila. ''Além de ser prejudicada na infância, porque não pode estudar, nem brincar, quem trabalha desde pequeno acaba precisando amadurecer antes do tempo'', argumenta Beatriz. E isso não é nada bom, porque, em sua opinião, essa independência precoce ''é igual a abandono''. Para Felipe, o absurdo do trabalho infantil explica-se por uma questão de mentalidade. ''O adulto tem a mente desenvolvida para resolver problemas'', afirma, convicto,''já a nossa mente é mais para brincar''.
Outro ponto importante em relação a esse assunto, como faz questão de ressaltar Beatriz, é que ''criança, por ser criança, faz tudo o que lhe pedem'', diferentemente do adulto, ''que não se deixa levar''. Pensando nisso, Felipe reclama: ''Onde é que estão nossos direitos nestas eleições?'' E Beatriz complementa: ''Somos cidadãos também''. Por isso, nada mais indicado do que, segundo Ana Júlia, ''o adulto ter consciência em quem está votando''. O país precisa de um bom presidente, afirmam todos, porque há problemas demais em muitas áreas: saúde, emprego, escola, casa, alimentação, violência, saneamento básico, energia... ''Crianças de rua também'', lembra Marina. Em todo caso, como explica Ana Júlia, ''é bom que quem for eleito não roube''. Mas talvez os adultos devessem seguir o conselho de Felipe, que revela uma insuspeitada sabedoria para seus 9 anos: ''Votar é não pensar em si mesmo, mas nas outras pessoas'', lembrando que ele tem o básico em casa e, por isso, pode viver plenamente sua infância. Na hora do voto, contudo, ''deve-se eleger quem tem condições de oferecer uma vida igual à nossa para um outro que esteja carente''.
Por falar em carências, quais seriam as dessas crianças que têm o mínimo - para viver bem-assegurado? Mais do que carências, as meninas e os meninos de hoje revelam uma expectativa, não muito positiva, em relação ao mundo adulto. Observam e valorizam o sacrifício dos pais para lhes dar tudo o que precisam e, por aquilo que vêem, consideram que há seriedade, trabalho e preocupações demais nessa etapa da vida. ''Quando a gente é criança'', explica Camila, ''sonha, sonha, sonha com um mundo que não poderá ser''. Mas também há atrativos, como lembra João Vítor: ''A gente pode se casar, ter filhos, aprender a dirigir e seguir o próprio nariz''. Aliás, casar - constituir família - é um desejo sempre presente em seus planos de futuro. Isso porque é na família que encontram o melhor exemplo de amor. ''Amor é tempo e está na simplicidade'', diz Beatriz, referindo-se aos momentos de intimidade e carinho usufruídos com os pais e, em especial, com os avós - referência importantíssima na vida das crianças de hoje. Felipe, que perdeu o avô recentemente, comenta, ainda comovido: ''Eles já são mais velhos quando nascemos e a gente sabe que vai perdê-los antes''.
Tristezas à parte, o dia das crianças está aí. Merece comemoração? ''Claro'', afirma Levi, ''tem dia de tudo, por que não um para nós?'' E se por acaso os pais apresentarem a desculpa ''esfarrapada'' de que, afinal, essa turminha não é mais criança e sim pré-adolescente, é melhor responder como João Vítor: ''Ora, não tem dia do pré-adolescente, então vamos comemorar o das crianças mesmo!''

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