Certas seqüelas (e aqui deve se adotar também o significado médico de sintoma ou efeito que permanece depois de certas doenças) são especialmente desconcertantes, para iniciar dizendo o mínimo. É claro que se compreende quando um grande hit de bilheteria praticamente impõe uma continuação, produzida ‘‘à quente’’ ainda no rastro da intensa popularidade de sua matriz geradora. Mas se elas aparecem cerca de uma década mais tarde, quando na verdade ninguém mais está dando a mínima, é preciso perguntar por que razão a poderosa indústria de imagens filmou bobagens tão improdutivas, sob qualquer ponto de vista.
  Por providencial coincidência, o fim de semana reservou para lançamento nacional dois títulos que não apenas padecem desta síndrome do efeito retardado - as produções originais são de 1994 e 95 - como também trazem, independentes da cronologia, sérios problemas até mesmo como simples diversão.   Em exibição a partir de hoje no circuito brasileiro, ‘‘Be Cool - O Outro Nome do Jogo’’ e ‘‘O Filho do Máskara’’ são dois filmes a se evitar, mesmo com o ingresso nas salas Catuaí custando mais barato. E se ‘‘Herói’’ já não está mais disponível, ‘‘O Clã das Adagas Voadoras’’ é a alternativa recomendável.
  ‘‘Seqüelas!’’, diz em tom de desgosto o Chili Palmer vivido novamente por John Travolta na comédia ‘‘Be Cool - O Outro Nome do Jogo’’. É exatamente a primeira palavra pronunciada pelo personagem. Há dez anos, na incisiva sátira ‘‘Get Shorty - O Nome do Jogo’’, ele era um produtor de cinema forçado a ser mais esperto que os espertalhões de Hollywood. Adaptação da novela do grande Elmore Leonard, dirigida com bom ritmo e fina ironia por Barry Sonnenfeld (‘‘Família Adams’’, ‘‘MiB 1 e 2’’), ‘‘Get Shorty’’ não merecia este desastrado desdobramento. Travolta-Chili Palmer reaparece agora como produtor musical, às voltas com o não menos impiedoso (baixo) mundo da indústria de discos na Califórnia, autêntica máfia dominada por americanos, russos ou afro-americanos. Gente capaz de cometer desatinos como eliminar qualquer rival ou comprar a alma de qualquer estrela em ascensão.
  Palmer, mistura de mafioso e galã maduro, se relaciona com a viúva (Uma Thurman) de um produtor musical assassinado em plena luz do dia em Hollywood (James Woods). A empresa dele esta praticamente falida, mas Chili descobre um diamante bruto e com a ajuda providencial de Steven Tyler e Aerosmith, o problema está solucionado. O que não tem solução é o roteiro, e a decepção cresce à medida que o filme avança. Fracionado em várias partes que não convergem para um todo, ‘‘Be Cool - O Outro Nome do Jogo’’ em momento algum chega a demonstrar solidez nem mesmo como entretenimento.
  Um ou outro sopro de invenção é entregue por alguns nomes do bom elenco, de resto desperdiçado. Nem mesmo as brincadeiras de meta-mensagem (Travolta e Uma Thurman na pista de dança retomando o cult ‘‘Pulp Fiction’’; Travolta revivendo o Tony Manero de ‘‘Embalos de Sábado à Noite’’) ou a intenção de auto-paródia são suficientes para amenizar a grande frustração.
  E o outro que definitivamente não merecia ser parte dois é ‘‘O Filho do Máskara’’. Se em 1994 ‘‘O Máskara’’ conseguiu se equilibrar (e se esgotar) corretamente como diversão de matinê dominical, a bem da verdade muito pelas graças ainda espontâneas de Jim Carrey, esta retomada do personagem é uma irresgatável mixórdia. Onze anos depois, temos agora um desenhista frustrado, Tim Avery (Jamie Kennedy), que após uma festa maluca de Halloween volta para casa com uma estranha máscara e possuído por um ser sobrenatural. Ele chega disposto a dar à mulher Tonya (Traylor Howard) uma intensa noite de paixão. E nove meses mais tarde o produto final é um filho superdotado que já nasce com poderes estranhos e acaba transformando a casa num hospício. Para se ter uma idéia, o precário (anti) climax é uma batalha entre o bizarro bebê e aquele cãozinho Otis do primeiro Máskara, aqui transformado para pior num monstrinho computadorizado capaz de assustar mesmo crianças pequenas - o filme está em cópia dublada, como atrativo extra.
  Nada inspirada e carente de sentido básico, esta pseudo-seqüela dirigida por Lawrence Guterman (‘‘Cats and Dogs’’) é sempre irritante, mesmo que por apenas 86 minutos. E o deplorável comediante Jamie Kennedy, que já deveria saber que dividir humor com crianças e animais gera alto risco profissional, consegue façanha inacreditável: transformar Jim Carrey numa espécie de Chaplin contemporâneo.

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