Seqüelas anacrônicas. E inúteis
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quinta-feira, 14 de abril de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha 2 
Certas seqüelas (e aqui deve se adotar também o significado médico de sintoma ou efeito que permanece depois de certas doenças) são especialmente desconcertantes, para iniciar dizendo o mínimo. É claro que se compreende quando um grande hit de bilheteria praticamente impõe uma continuação, produzida à quente ainda no rastro da intensa popularidade de sua matriz geradora. Mas se elas aparecem cerca de uma década mais tarde, quando na verdade ninguém mais está dando a mínima, é preciso perguntar por que razão a poderosa indústria de imagens filmou bobagens tão improdutivas, sob qualquer ponto de vista.
Por providencial coincidência, o fim de semana reservou para lançamento nacional dois títulos que não apenas padecem desta síndrome do efeito retardado - as produções originais são de 1994 e 95 - como também trazem, independentes da cronologia, sérios problemas até mesmo como simples diversão. Em exibição a partir de hoje no circuito brasileiro, Be Cool - O Outro Nome do Jogo e O Filho do Máskara são dois filmes a se evitar, mesmo com o ingresso nas salas Catuaí custando mais barato. E se Herói já não está mais disponível, O Clã das Adagas Voadoras é a alternativa recomendável.
Seqüelas!, diz em tom de desgosto o Chili Palmer vivido novamente por John Travolta na comédia Be Cool - O Outro Nome do Jogo. É exatamente a primeira palavra pronunciada pelo personagem. Há dez anos, na incisiva sátira Get Shorty - O Nome do Jogo, ele era um produtor de cinema forçado a ser mais esperto que os espertalhões de Hollywood. Adaptação da novela do grande Elmore Leonard, dirigida com bom ritmo e fina ironia por Barry Sonnenfeld (Família Adams, MiB 1 e 2), Get Shorty não merecia este desastrado desdobramento. Travolta-Chili Palmer reaparece agora como produtor musical, às voltas com o não menos impiedoso (baixo) mundo da indústria de discos na Califórnia, autêntica máfia dominada por americanos, russos ou afro-americanos. Gente capaz de cometer desatinos como eliminar qualquer rival ou comprar a alma de qualquer estrela em ascensão.
Palmer, mistura de mafioso e galã maduro, se relaciona com a viúva (Uma Thurman) de um produtor musical assassinado em plena luz do dia em Hollywood (James Woods). A empresa dele esta praticamente falida, mas Chili descobre um diamante bruto e com a ajuda providencial de Steven Tyler e Aerosmith, o problema está solucionado. O que não tem solução é o roteiro, e a decepção cresce à medida que o filme avança. Fracionado em várias partes que não convergem para um todo, Be Cool - O Outro Nome do Jogo em momento algum chega a demonstrar solidez nem mesmo como entretenimento.
Um ou outro sopro de invenção é entregue por alguns nomes do bom elenco, de resto desperdiçado. Nem mesmo as brincadeiras de meta-mensagem (Travolta e Uma Thurman na pista de dança retomando o cult Pulp Fiction; Travolta revivendo o Tony Manero de Embalos de Sábado à Noite) ou a intenção de auto-paródia são suficientes para amenizar a grande frustração.
E o outro que definitivamente não merecia ser parte dois é O Filho do Máskara. Se em 1994 O Máskara conseguiu se equilibrar (e se esgotar) corretamente como diversão de matinê dominical, a bem da verdade muito pelas graças ainda espontâneas de Jim Carrey, esta retomada do personagem é uma irresgatável mixórdia. Onze anos depois, temos agora um desenhista frustrado, Tim Avery (Jamie Kennedy), que após uma festa maluca de Halloween volta para casa com uma estranha máscara e possuído por um ser sobrenatural. Ele chega disposto a dar à mulher Tonya (Traylor Howard) uma intensa noite de paixão. E nove meses mais tarde o produto final é um filho superdotado que já nasce com poderes estranhos e acaba transformando a casa num hospício. Para se ter uma idéia, o precário (anti) climax é uma batalha entre o bizarro bebê e aquele cãozinho Otis do primeiro Máskara, aqui transformado para pior num monstrinho computadorizado capaz de assustar mesmo crianças pequenas - o filme está em cópia dublada, como atrativo extra.
Nada inspirada e carente de sentido básico, esta pseudo-seqüela dirigida por Lawrence Guterman (Cats and Dogs) é sempre irritante, mesmo que por apenas 86 minutos. E o deplorável comediante Jamie Kennedy, que já deveria saber que dividir humor com crianças e animais gera alto risco profissional, consegue façanha inacreditável: transformar Jim Carrey numa espécie de Chaplin contemporâneo.


