O sentimentalismo corre solto em ‘‘Per Amore’’, o que não poderia ser diferente em se tratando de um disco com canções italianas. Porém, o grande mérito é que Zizi Possi soube talhar de maneira inteligente canções que, na voz de outro intérprete com menos personalidade, acabaria por cair no desvario. É agradável ouvi-la cantando em italiano (ou em dialeto napolitano) por um motivo bastante simples: Zizi deixou de lado a técnica que muitas vezes a impedia de ser feliz em alguns de seus discos para se mostrar arrebatada, desnuda, exata.
A delicadeza e a sofisticação de ‘‘Per Amore’’ o salva, por exemplo, de ser um trabalho quem tem a princípio algo de muito pessoal e pouco de comercial. Para ouvi-lo é preciso apenas aguçar a sensibilidade já que, inteligentemente, o encarte traz as devidas traduções em português das canções. São letras passionais, falam de amor, saudade e também fatos corriqueiros que, por força da letra ou música, ganham sentido poético. ‘‘Per Amore’’ abre e fecha com referência a Nápoles.
O tom camerístico ronda todo o disco. Porém, ao contrário de alguns discos nesse formato, não soa chato nem causa bocejos sucessivos. Essa estética musical que Zizi vem adotando nos últimos trabalhos se revela desta vez grandiosa. Mais: dramática sem cair em clichês, seja interpretativos ou de arranjos, que rondam discos como ‘‘Equilíbrio Distante’’, o badalado disco em italiano de Renato Russo. E nem tentem comparar os dois trabalhos: ambos estão separados por centenas de milhas e milhas e milhas
‘‘Per Amore’’ é, sobretudo, um disco pessoal e não um trabalho a ser tocado em cantinas ou em alegres reuniões dominicais de famílias italianas. É endereçado a quem consegue ver algo que vai além do fato de Zizi estar cantando em italiano. E quem consegue ver - e principalmente ouvir - cai em estado de graça por causa da rica sutileza interpretativa de Zizi.
Desta vez, sim, Zizi Possi não aparece apenas como uma cantora. É, agora, uma intérprete que esparrama seus registros vocais de forma natural. Vai do drama à felicidade com a mesma intensidade. É tocante seja na belíssima e sentimental ‘‘Ho capito che ti amo’’ (Luigi Tenco), na manjada ‘‘Caruso’’ (Lucio Dalla), na agora bossanovística ‘‘Senza Fine’’ (Gino Paoli) ou na comercial (por imposição da novela) ‘‘Per Amore’’.
O lado alegre do disco fica por conta do resgate de ‘‘Torero’’ (R.Carosone-A.Hoffman-D.Manning - N.Salerno) que traz interferência de estilos como tango, bolero e até música flamenca. Deliciosa. Porém, ‘‘Per Amore’’ foi feito para comover almas seja qual for a nacionalidade. E nesse quesito nada supera ‘‘E Chiove’’ (Giuseppe Amoruso -S.Cirillo). Só por essa o disco já vale a pena. Mas em se tratando de Zizi Possi tudo vale a pena mesmo feito um trabalho em etrusco arcaico. ‘‘Per Amore’’ não deve sair do CD Player. Feito isso, bom deleite! (A.M.J.)

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