Abre hoje à noite, no Museu de Arte Contemporânea, em Curitiba, o 52º Salão Paranaense. Na Praça Zacarias, a alguns metros do museu, a artista plástica Maria Inês Hamann Peixoto estará expondo sua obra ‘‘Sentença’’, que foi excluída de última hora pela comissão julgadora, numa reunião a portas fechadas. A artista estranhou a mudança de atitude dos jurados depois da decisão tomada publicamente. Aliás, o Salão Paranaense orgulha-se em dizer que as escolhas são públicas e cristalinas. Não foi o que aconteceu.
A ironia da proposta da obra e do episódio envolvendo sua desclassificação é que alguém foi sentenciado. Maria Inês sentia-se a própria: ‘‘A pior sentença não foi a recusa, mas a impossibilidade que eu tive de hora para outra de não poder mostrar aquilo que já estava certo, inclusive com testemunhas que acompanharam a decisão do júri’’, ela diz.
Performance A frustração durou até vir a solução - levar ‘‘Sentença’’ para a rua. A obra é uma estrutura em ferro, que mantém uma segunda estrutura semelhante, onde está suspensa uma gaiola também de ferro. No seu interior será colocada uma barra de gelo de 60x60 cm, trazendo no interior um coração de boi.
Levará algumas horas para o gelo derreter por completo. A artista ficará sentada sob os pingos d‘água gelados e intermitentes, até que o coração caia. Ele estará a pouco mais de um metro de altura. Vestida com uma mortalha preta e capuz, fará então uma performance com o órgão, embalando, oferecendo às pessoas.
‘‘Trabalho com a imagem da vítima e do algoz, porque ambos são indissociáveis’’, explica Maria Inês Hamann Peixoto. O discurso ganha mais peso depois do acontecido. ‘‘Você ter sido aceita publicamente e depois, quando se fecha a porta você é retirada é uma coisa muito chata’’, volta a afirmar. O gelo da praça seria o mesmo do Salão? ‘‘Pode ser uma das sentenças’’, argumenta a artista. ‘‘Depende da leitura’’.

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