Sentado à beira do precipício
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de maio de 2002
Marcos Losnak Especial para a Folha 
Michel Houellebecq é atualmente o escritor mais comentado da literatura francesa. Seu último romance, Plataforma, publicado no ano passado, provocou tanta polêmica quanto processos jurídicos contra o autor. Isso porque o protagonista do livro faz uma descarada apologia da prostituição e do turismo sexual. Para esquentar mais as coisas, desce a lenha no fundamentalismo islâmico.
Irônico em todos póros, Houellebecq é um escritor que espalha idéias pela narrativa sem nenhuma espécie de pudor. Idéias que funcionam como leitura do mundo contemporâneo, um mundo repleto de hematomas sentado à beira do abismo. Não pede para que os leitores comunguem dessas idéias, mas que levem a possibilidade de alguém pensá-las.
A Editora Sulina está publicando o primeiro romance escrito por Houellebecq, Extensão do Domínio da Luta. Nele pode-se encontrar todos os elementos que colocaria em prática em seus livros posteriores como Partículas Elementares e o próprio Plataforma. Sua grande arma é uma corrosiva ironia que coloca a nu o caos existencial.
Extensão do Domínio da Luta conta a história de um homem em sua tarefa de retirar, uma a uma, as máscaras das coisas e das pessoas. A cada máscara retirada vê encorpar o vazio da existência. Enfrenta o próprio processo de decadência, inundado pelo nada, com uma ironia perspicaz. Compreende, então, que uma sociedade sem máscaras não possui chances de sobrevivência. Só a loucura teria a capacidade de acalentar o homem num mundo sem máscaras.
Uma das idéias apresentadas pelo narrador, por exemplo, é de que a sexualidade é um sistema de hierarquia social. Nada mais, nada menos. Chega a realizar uma comparação entre a sexualidade com a globalização econômica. Para ele, o liberalismo, seja sexual ou econômico, produz um pequeno bando de vencedores e uma manada de vencidos.
Ao olhar o mundo e as pessoas de maneira crua e nua, o narrador de Extensão do Domínio da Luta vê as coisas como elas são. Ou seja, idiotas e vazias, falsas e ressentidas. Nesse processo não encontra nada para preencher o desgosto, a falta de sentido, a falta de finalidade da existência. Converte-se, então, num homem condenado. Condenado a retirar-se do mundo, condenado a não conseguir sair de si mesmo. Jean-Paul Sartre iria adorar ler Michel Houellebecq.
Serviço:
Extensão do Domínio da Luta de Michel Houellebecq, Editora Sulina (www.editorasulina.com.br), tradução de Juremir Machado da Silva, 142 páginas, R$ 21,00.


