Por outro lado, quem apareceu fora de concurso (infelizmente) e esbanjando criatividade foi o iraniano Abbas Kiarostami com o fascinante ''Shirin''. O filme, inspirado em poema clássico persa escrito no século 12, é uma experiência melodramática tão moderna quanto desconcertante para quem não é frequentador assíduo de salas de arte e ensaio. Se situa na mesma linha temática proposta por Kitano, mas resulta, como reflexão sobre arte e realidade, infinitamente superior às tentativas do japonês.
O que fez Kiarostami? Convidou 114 famosas atrizes iranianas de cinema e teatro e uma ocidental (Juliete Binoche, sem qualquer destaque nos créditos e com o mesmo tempo em cena que as outras) e filmou seus rostos, um por um, olhando de frente para o espectador - elas aparentemente estão numa sala de projeção e olham para uma tela, colocada logo acima da câmera, onde se desenrola, também aparentemente, a encenação teatral, a dramatização do poema. O espectador do lado de cá, ou seja, nós, jamais vemos uma cena sequer do que está na tela, apenas ouvimos o texto interpretado por atores.
Mas o melhor ainda estava por vir. Durante a coletiva, Kiarostami revelou seu método minimalista. Em nenhum momento as mulheres vêem qualquer cena ou ouvem a dramatização seja lá do que for. Na frente delas, pouco acima da câmera, um telão em branco com três pontos assinalados em negro. O cineasta apenas pediu que, durante cerca de cinco minutos, todas pensassem primeiro em qualquer fato pessoal que tivesse deixado marcas profundas, lembranças, tragédias ou fatos felizes olhando fixamente para os pontos.
Uma viagem interior. Kiarostami colheu expressões as mais diversas, muitas lágrimas, algum riso, muita tensão. Os homens foram excluídos do processo, e apenas podem ser vistos na sala na semi-obscuridade, nas fileiras de poltronas atrás das mulheres. Aliás, bonitas todas. O cineasta então montou a narrativa sonora em off, a saga melodramática da sofredora Shirin, sobrepondo o áudio ao olhar das ''espectadoras''. Ou vice-versa.
Para ele, trata-se de seu filme mais cinematográfico, ''no qual os olhos estão no centro de tudo. Nenhuma obra existe se não há o público, e quando se acende a luz resta vivo o imaginário do espectador.'' Um pouco à maneira do nosso documentarista Eduardo Coutinho, de certa forma recorrendo a uma idéia muito parecida a ''Jogo de Cena'', Kiarostami fez outras das suas belas incursões à metalinguagem, ao cinema no cinema.
Neste (e em todos, esta é a sentença a cumprir) Festival de Veneza, frustrações diárias de não poder acompanhar a programação paralela farta e de alta qualidade. Como a seção ''Questi Fantasmi: Cinema Italiano Ritrovato (1946-1975)'', com uma coletânea de filmes retirados do ''limbo'' e restaurados como forma de recuperar cineastas que durante as três décadas citadas permaneceram em segundo e terceiro plano obscurecidos pela obra dos grandes autores da Itália. (C.E.L.J.)

mockup