Sensibilidade com responsabilidade
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de dezembro de 2008
Denise Ribeiro<br>Equipe da Folha 
Visitar uma exposição é deparar-se não apenas com a obra do artista mas com uma forma única de apresentá-la ao público, pensada por alguém cuja preocupação deve ser transmitir com a maior clareza possível o que o autor pretende. O profissional que desempenha esse papel, conhecido como curador, é aquela voz explicativa que o leitor encontra frequentemente em matérias sobre a abertura de uma nova mostra de arte.
Mas o que credencia esse profissional a atuar como mediador entre o artista, sua obra e o público? O caminho a percorrer é longo. Os cursos de formação específica são raros. Curadores experientes e iniciantes ouvidos pela FOLHA explicam como funciona a atividade e como se dão os primeiros passos nessa área.
Professor do departamento de Artes da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Fernando Bini, tornou-se curador e crítico de arte orientando os próprios alunos que desejavam expor seus trabalhos. Para Bini, o termo ''curador'' (aquele encarregado de administrar ou fiscalizar bens ou interesses de outrem) diz pouco sobre o que representa a atividade no campo artístico. ''É mais alguém que pensa a exposição do ponto de vista teórico, que pensa a obra do artista. É pensar o conjunto da obra e tirar dela alguns aspectos dando uma visão do artista'', explica o curador.
Para a professora de História da Arte da Faculdade de Artes do Paraná (FAP), Rosemeire Odahara Graça, que também atua como curadora, o objetivo da curadoria deve ser mostrar ao público uma leitura sobre a obra, que muitas veze é compartilhada com o próprio autor. ''É um processo, não quer dizer que você é dono da obra daquele artista. Você está lendo a obra. Outras interpretações virão'', justifica.
Segundo Rosemeire, o curador é aquele que promove o diálogo entre as três esferas da arte, o artista, o público e o espaço no qual se dará a exposição. ''É como se você fosse um diplomata, um tradutor das informações, porque o artista vive no mundo dos sentidos, não no da razão. Ele não tem o tempo que a gente tem. O tempo dele é um tempo dilatado, imaterial'', avalia.
De acordo com Bini, para ser curador é preciso conhecer a história da arte, as diferentes técnicas e linguagens, estudar a teoria (estética e filosofia da arte) e preparar a visão. ''É preciso ter sensibilidade para a arte dos outros. Como é que se chega lá? É pela experimentação. Tem que ter um trabalho teórico e se tornar visível'', ensina o crítico, que ressalta também a importância da humildade. ''A obra do artista é o mais importante. O artista é sempre o proprietário da sua obra. É ele que tem o direito sobre ela'', completa.
Outra atribuição do curador é possibilitar a leitura tanto para o público leigo quanto para o público mais experiente. ''Temos que abrir as portas para que todo o tipo de público possa entender, tanto o especializado quanto o que não tem o hábito de visitar exposições. Por isso, o curador usa o texto. Para que o caminho que ele pensou fique bastante claro'', observa Bini.
Para Rosemeire, é preciso ter sensibilidade também para dizer ao artista quando não é hora de expor. ''Às vezes o trabalho não está pronto e você tem o dever de alertar. Tem que desenvolver um grau de intimidade e respeito mútuo. Não acredito no curador todo-poderoso, não é papel do curador se projetar acima do artista. É um trabalho de neutralidade'', explica a curadora.


