Sensibilidade à toda prova
Está saindo do forno um dos melhores lançamentos do ano: o CD ‘‘Viola Quebrada’’. O título tanto pode se referir ao nome do grupo, formado por Oswaldo Rios e Margareth Makiolke (vocais), Rogério Gulin (viola caipira), Maurílio Ribeiro (violão e contrabaixo), Rubens Nunes Pires (acordeom) como à clássica canção de Mário de Andrade, que aliás, serviu de inspiração para batizar o quinteto.
O disco é um apanhado de clássicos da música de raiz mesclados a trabalhos recentes, como ‘‘Gabriel’’(Gulin), ‘‘Meu Céu’’ (Xavantinho/Zé Mulato) e raridades como no caso de ‘‘Curraleira’’ (Osmar da Costa Vale/Doquinha), cuja versão possivelmente é a primeira em toda a história da curraleira, dança considerada extinta em Goiás, mas ainda ouvida em Minas.
A harmonia soa perfeita ao longo das 14 faixas. ‘‘Viola Quebrada’’ abre o CD que tem jóias como ‘‘Moda da Pinga’’ (Ochelcis Laureano), ‘‘Meu Primeiro Amor’’ (H. Gimenez/J.Fortuna/Pinheirinho Jr.), ‘‘Moreninha Linda’’ (Tonico/Priminho/Maninho), ‘‘Flor do Cafezal’’ (Luiz Carlos Paraná). ‘‘As Mocinhas do Sertão’’ (Nhô Belarmino).
Pena Branca e Xavantinho estiveram em Curitiba especialmente para a gravação do disco. Foi em julho de 99 e pela última vez Xavantinho entrou num estúdio – viria a falecer dali a três meses. Outra importante participação é do violeiro Roberto Corrêa em ‘‘Curraleira’’ e ‘‘Empreitada Perigosa’’ (Moacyr dos Santos/Jacozinho).
São nomes respeitados nacionalmente. Porém, alguns dos melhores profissionais curitibanos emprestaram seu talento para o trabalho, como o grupo Terra Sonora que canta e toca em ‘‘Meu Primeiro Amor’’.
Apesar da economia de instrumentos nas canções, os arranjos – assinados pelo Viola Quebrada, por Roberto Corrêa e Rogério Gulin – incluíram concertino, flauta, rabeca, pandeiro, baixo, bateria. À batida caipira das violas e violões, esses novos sons dão um ‘‘qu꒒ enriquecedor. O jornalista, escritor e cineasta Valêncio Xavier comenta no encarte que em algumas faixas, como ‘‘Viola Quebrada’’, o grupo ‘‘se aproxima bastante da música erudita’’.
Trabalho essencialmente de raiz, tem beleza genuína. Há refinamento – nas letras, nas melodias, interpretações e acompanhamentos – que a indústria dos ‘‘breganejos’’ desconhece e dá de ombros. Nele não há espaço para a vulgaridade dos textos atuais, mas abre-se a poemas como o de ‘‘Moreninha Linda’’: ‘‘Meu coração tá pisado/ como a flor que murcha e cai/ pisado pelo desprezo/do amor quando se vai’’. Pois é, sensibilidade à toda prova. (Z.C.L.)

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