Sensibilidade à flor da pele
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 17 de maio de 2002
Jackeline SeglinReportagem Local 
O romance Orlando, inspirado por uma paixão homossexual da escritora inglesa Virgínia Woolf (1882-1941), ganha nova versão nos palcos com a livre adaptação da Cia. BuissoniSre, da Suíça, que se apresenta hoje e amanhã, no Festival Internacional de Londrina (Filo). O espetáculo, agendado para 20h30, no Cine-Teatro Ouro Verde, traz a combinação dança, cinema e teatro com o intuito de levar os espectadores ao universo intimista de Virgínia Woolf.
Na montagem, a BuissonniSre procura imprimir sua marca: usar a criatividade para cultivar humor e prazer na descoberta de sentimentos recalcados. O coreógrafo, ator, diretor e bailarino Cisco Aznar, criador do espetáculo, diz que sua intenção foi entrar no universo de Woolf. Não somente no personagem Orlando, como na vida da escritora e em sua própria obra. Fizemos uma interação da peça com a vida dela. A própria Virgínia inventou um personagem para falar de sua vida.
O livro, publicado em 1928, conta a história de um aristocrata que vive 400 anos em sua propriedade 200 como homem e 200 como mulher antes de chegar ao momento presente.
Quatro intérpretes três formados em dança e um músico sobem ao palco para transitar entre vários personagens. Cisco Aznar conta que o espetáculo traz figuras muito fortes, histriônicas, algumas até puxadas para o grotesco. Para o diretor, o movimento é a forma de comunicar sentimentos. Às vezes os intérpretes dançam para se expressar. Às vezes é somente atuação, comenta o coreógrafo, explicando que o espetáculo traz pouco texto falado em espanhol (no filme) e muita expressão vocal.
No telão, cenas de filmes com integrantes da companhia constroem um conjunto com os atores que estão no palco. A interação da dança, a teatralidade da imagem, me permitiram comunicar com maior desenvoltura o reflexo da minha imaginação. Gosto de pensar que nosso Orlando conseguiu submergir às turbulentas águas da escritora inglesa.
O personagem principal transita entre os dois sexos, ressaltando toda sua ambiguidade. Procurei criar um espaço onde o tempo e os sexos se confundem, para melhor refletir a relatividade destes fatores. O espetáculo também evoca a melancolia do mundo de Woolf, como na presença constante do mar, que pode ser o elemento que tranquiliza, mas ao mesmo tempo remete à partida. O importante é resgatar a poesia, o humor, a melancolia e a sensibilidade de Virgínia Woolf.
A Cia. BuissonniSre já se apresentou no Brasil com outras duas montagens: Peter Funk (1999, em Belo Horizonte e Uberlândia) e Bochorno (2000 no Festival Internacional de Teatro/Belo Horizonte). Depois do Filo, a companhia Suíça apresenta Orlando nos dias 22 e 23 no Sesc Anchieta, em São Paulo.
O espanhol Cisco Aznar, ex-aluno do lendário Maurice Béjart, também trabalhou em 1996 com o grupo de dança Vórtice, de Uberlândia, que resultou no espetáculo Adan e Pepa (1997).
SERVIÇO:
Orlando, com a Companhia BuissonniSre, da Suíça. Livre adaptação do romance homônimo de Virgínia Woolf. Criação: Cisco Aznar. Intérpretes: Odile Foehl, Eva Vilamitjana, Carlos Fernández e Andreas Pfiffner. Filmes: Luis Lara, Janine Waeber e Cisco Aznar. Iluminação: Jordi Pascual. Trilha sonora: Andreas Pfiffner e Cisco Aznar. Cenografia e figurino: Luis Lara e Cisco Aznar. Administração: Nicole Lieber e Luis Lara. Duração: 1h30.


