Quando o cenógrafo se tornará um diretor? Já se tornou ou nunca vai se tornar? As funções estão tão entrosadas que muitos diretores são também cenógrafos e vice-versa. Mas nem todos concordam que as profissões devam se confundir. Nas mesas que debateram este tema no Fórum do Fazer Cenográfico, que começou ontem na programação do Filo, as opiniões convergiram para que as nomenclaturas não ficassem tão presas.
‘‘Eu não quero ser diretor’’, afirma o cenógrafo Serroni, mediador do debate. ‘‘Não é exatamente uma invasão, mas uma questão de vaidade, de facilitar a produção. Há diretores que não entendem uma planta, precisam trabalhar com um cenógrafo do lado. Acho superinteressante um diretor ter experiência em cenário mas não acho que deva ser uma regra.’’
Nos Estados Unidos é expressamente proibido um cenógrafo dirigir ou vice-versa. ‘‘Até por uma questão de preservar os empregos. Mas no Brasil temos só duas escolas de formação de cenógrafos, na UniRio e na UFRJ. Em São Paulo não existe uma única faculdade de cenografia’’, reclama Serroni.
Por aqui, segundo o cenógrafo, tudo é muito não regulamentado. Na América do Sul, apenas a Venezuela e o Chile participam de alguma entidade internacional que regulamenta as profissões de quem trabalha em teatro. ‘‘Pretendemos tirar desse Fórum um documento para que possamos fazer parte dessas entidades representativas.’’
Anunciando que fará os cenários das próximas peças de Gabriel Vilela, a trilogia: ‘‘Ópera do Malandro’’, ‘‘Gota d’água’’ e ‘‘Calabar’’, Serroni pede para que Vilela faça sua análise sobre a profissão. ‘‘Tudo o que aprendi vem da minha experiência, do universo imaginário da cultura de Minas Gerais. Em teatro sou híbrido, de diretor e cenógrafo ataco de figurinista.’’
Para explicar-se melhor, Gabriel conta que quando criança caiu num buraco cheio de brasas. As pernas sofreram queimaduras gravíssimas de 3º grau. Em função disso, as primeiras recordações de sua infância são na cama, com uma família enorme à volta - seis irmãos e 48 primos - e muito tempo disponível. ‘‘Tudo se deslocava à minha volta. Minha primeira brincadeira, quando voltei a andar, foi construir uma caverna no bambuzal. O sentido de fazer teatro, para mim, está relacionado a este episódio da minha infância.’’
Gabriel Vilela tem feito há muito tempo, o cenário, a direção e o figurino de suas peças. ‘‘Como cenógrafo posso inspirar mais e como diretor, intimidar mais. Essa discussão, para mim, é banal. Eu devolvo com a pergunta: ‘quando um arquiteto se torna um cenógrafo e diretor? Mas reconheço a profissão de cenógrafo, tanto que convidei o Serroni.’’
Na opinião do arquiteto, cenógrafo e diretor venezuelano Edwin Erminy, não há uma resposta estanque para a questão, ‘‘o mais importante é que todos se completam e devem compartilhar do processo de fazer teatro. Sempre levando em conta a presença tridimensional do ator’’.
O cenógrafo José Dias só faz cenários. ‘‘Eu não sei dirigir e em várias peças me pergunto ‘por que aquele senhor está dirigindo este espetáculo?’ Não dá para entender.’’ O cenário trabalha com signos não verbais e de forma mais solitária que a direção, o cenógrafo caracteriza a cena dramática, como um guarda de trânsito, delimita a área, define as entradas e saídas, e os planos livres de ação. ‘‘Então, não sou também responsável pela marcação dos atores em cena? Não é o cenógrafo que dirige o espaço?’’
Encerrando a discussão, Serroni argumenta que o teatro, atualmente, vive uma crise de parcerias. Há pouco tempo trabalhavam juntos Gerald e Daniela Thomas, ele e Antunes Filho, Fernando Mello e Bia Lessa, José Anchieta e Cacá Rosseti, hoje está cada um por sua conta e risco.

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