Reproducao/capa do CDElza Soares: ‘‘O disco ficou bonito porque estou me gostando...’’Ma-ra-vi-lho-sa. Sim, é preciso separar as sílabas para adjetivar Elza Soares porque existem milhões de pessoas que são maravilhosas apenas por extenso. E Elza Soares é ma-ra-vi-lho-sa não só porque comeu o pão que o diabo amassou e o capeta assou como também sempre se manteve artisticamente digna e correta. Claro, para algumas pessoas, é mais fácil vê-la pelo ângulo da desilusão do que propriamente pelo seu talento, seu estilo ou sua real importância para a Música Popular Brasileira. E Elza, atualmente, parece estar disposta a parar de posar de porta voz da tristeza para voltar a ser o que sempre foi: uma das principais escolas musicais que o Brasil já conheceu. Uma estilista vocal.
Pois muito bem, Elza Soares está de volta aos discos. Foram doze anos de afastamento. Doze longos anos compensados agora com o fantástico ‘‘Trajetória’’ (Universal) que a devolve ao seu habitat mais natural - o samba (veja texto nesta página). Sim, ao samba, contrariando a expectativa de que retornaria - só Deus saberia quando - ao disco com um sotaque e suingue mais jazzístico. Há uma certa lógica para esse tipo de pensamento: em suas apresentações em programas de TV ou shows-relâmpagos dava a entender que sua voz estava à serviço da música brasileira só que com solavanco de jazz.
Elza voltou. E voltou feliz. Com tiradas incríveis. Falar em passado, ela fala sem amargor.‘‘Quem passou fome sabe muito bem de onde tirar forças. Passei fome, mas hoje já sei o gosto do scargot, de filé mignon . E quer saber de uma coisa, meu bem? Quem conhece o gosto de lagosta não quer saber nunca mais o gosto de sardinha’’- diz ela, entre gostosas gargalhadas.
Quem quiser saber mais sobre Elza Soares no melhor estilo ‘‘sua vida, seus amores, seus sofrimentos’’ basta comprar e ler atentamente a biografia da cantora ‘‘Cantando para não Enlouquecer’’, que está chegando às livrarias. Escrito por José Louzeiro, o livro demorou oito anos para ser preparado. Maiores detalhes, só lendo.
Elza tem quase 40 anos de carreira. Discos, nem ela sabe quantos. ‘‘São muitos’’ - resume. O primeiro foi gravado em 61. O grande impulso à carreira artística veio de Ary Barroso e de forma não muito carinhosa. Era uma pirralha quando decidiu participar do show que Barroso mantinha, no final da década de 50. Entra no palco. ‘‘De que planeta você veio, minha filha?’’ - perguntou o apresentador. E ela, rápida: ‘‘Do planeta fome’’ - respondeu a menina. Coube ao apresentador engolir a seco a gracinha. Elza saiu triunfante com o prêmio máximo embaixo do braço.
Cara do Brasil‘‘Trajetória’’ nasceu de um convite feito pelo produtor José Milton. É o primeiro CD de Elza Soares. ‘‘Ele (José Milton) estava produzindo o disco do Miltinho e falou desse projeto comigo. No começou fiquei meio assim porque estava voltando ao Brasil... Mas acabei topando e o disco ficou maravilhoso’’ - conta ela.
O afastamento do mundo do disco - e também do Brasil, pois ficou bons anos cantando entre EUA e Europa - foi uma escolha pessoal. Motivos pessoais. Fortes motivos pessoais. ‘‘O próprio tempo pediu um tempo para mim. Estava perdida, meu filho tinha morrido (Garrinchinha, morto em 85, aos 9 anos, por atropelamento). Eu precisava realmente dar um tempo. Aí, larguei tudo, estava chateada, estava desconectada’’- conta Elza.
De volta ao Brasil e aos discos, Elza está feliz. Em nenhum momento da entrevista apelou, quis passar a famosa imagem de ‘‘coitada’’, com a qual as pessoas sempre a viram (se bem que ela ajudou, certa época, a compor essa personagem). Parece querer deixar bem claro que sua memória é seletiva, ou seja, o passado pertence ao passado mesmo tendo deixado cicatrizes. E de mais a mais, já encheu um pouco o saco do público esse negócio de ficar tocando na tecla ‘‘Mané Garrincha’’ toda a santíssima vez em que seu nome está em evidência.
Mas, de leve, ela deixa escapar alguma coisa: ‘‘Eu já era rica antes de conhecer o Man钒 - avisa. Há, no CD, uma composição que Elza engavetou por 20 anos. Chama-se ‘‘Liberdade para Amar’’, feita em parceria com Iberê Melodia. ‘‘Não gravei naquela época porque não tinha liberdade para amar. E se gravasse, por causa do Mané (Garrincha), poderia soar como uma coisa provocativa. Preferi engavetar’’ - conta.
Sobre ‘‘Trajetória’’, no todo, Elza Soares está que não se aguenta de alegria. A auto-crítica feita por ela chega a ser quase uma definição perfeita do trabalho. ‘‘O disco é a minha cara, que é a cara do Brasil. É um disco de amor’’ - afirma. E ela tem razão. O trabalho está consistente por vários motivos. O principal é que a cantora Elza está econômica no cantar.
Seus famosos trinados roucos estão contidos. Às vezes, contidos demais. Chegam a fazer falta. ‘‘Saber cantar, graças a Deus, eu sei. E nesse disco estou mais segura. Lá se encontram a cantora, a intérprete e a sambista. E ficou bonito. O disco ficou bonito porque estou me gostando, estou gostosa’’ - diz.
O contrato com a nova gravadora vai longe. Prevê mais discos, pelo menos três, que, se depender de Elza, serão lançados anualmente. ‘‘Meu bem, tem que ser um disco por ano. No Brasil, se não fizer a gente acaba caindo no esquecimento’’ - analisa. Exagero dela.
Madrinha de bateriaUm disco só de jazz não está descartado. Só Deus é quem sabe quando sairá. A cantora, cujo projeto anseia há muito tempo, diz resignada que ainda não é o momento propício. Mas há outros planos a curto prazo que ela vai colocar em prática. O primeiro: fazer uma participação especial no próximo disco de Edson Cordeiro. Trata-se de uma música inédita, cujo nome do compositor ela não se lembra. ‘‘Recebi esses dias e topei porque sou simplesmente apaixonada pelo Edson Cordeiro’’ - avisa.
O outro é de deixar o queixo caído. Elza foi convidada e aceitou sem titubear ser madrinha de bateria da escola Caprichoso de Pilares, no próximo Carnaval. Desbancou a eterna Globeleza, Valéria Valenssa. ‘‘Meu amor, se prepare porque você terá uma surpresa. Eu vou arrasar. A mona aqui vai arrasar’’ - brinca ela, utilizando um linguajar gay. ‘‘Ora, vocês ainda duvidam que eu sou um viado? Eu sou um viado’’ - completa soltando uma gostosa gargalhada. Vai ar-ra-sar!!

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