Senhora das emoções
Antônio Mariano Júnior
De Londrina
Jorge Amado declarou e assim saiu escrito no jornal: Maria Bethânia é uma Iansã viva. É... Quem colocou os olhos sobre ela, no palco, mesmo desconhecendo a mitologia do candomblé, teve pupilas dilatadas e cabelos e pêlos arrepiados pelos ventos evocados nos gestos e rodopios de Bethânia. Virulenta, romântica, fatal. Promotora de tempestades cênicas. A maior atriz da música popular brasileira.
Não se vai a um show de Maria Bethânia; vai-se a um espetáculo de Maria Bethânia. Concebido com conceitos entrelaçados e fortes como os ekans (ou contra-egum, palha da costa trançada por babalaôs para se afastar espíritos mortos) que ela amarra firmemente no braço esquerdo como na foto da capa de Diamante Verdadeiro, seu novo disco. Ao vivo. Duplo. Registro integral do espetáculo A Força que Nunca Seca.
Vinte e sete canções, algumas, como é de hábito, agrupadas numa só faixa. Cinco poemas diluídos entre canções. E Bethânia incorpora-se em personagens por ela mesma criados a romântica, a dramática, a etérea, a religiosa, a indignada política e socialmente, a senhora absorta em versos fortes. Quem, se não Bethânia, para cantar Outra Vez (Isolda) como se fosse uma canção de amor ainda com a incumbência de suturar sentimentos rotos?
Quem se não essa senhora para declamar Navio Negreiro, de Castro Alves, se deixando levar, num trecho, pela sugerida percussão funk? Ou chapar ateus e cristãos, ao saudar seu orixá de cabeça através dos versos belos do poeta português Manuel Alegre?
Já foi cantado em verso e prosa é quase uma máxima que Bethânia rende melhor diante de uma platéia. Alguns de seus melhores discos são os gravados ao vivo e ela foi precursora, antes mesmo de esse tipo de expediente se banalizar, com o antológico Recital na Boate Barroso (68). E Diamante Verdadeiro está lado a lado, por exemplo, com Drama Terceiro Ato(73) e Drama, Cena Muda (74) ou, mais recentemente, Imitação da Vida (97).
Ver Bethânia em cena é diferente, claro, de ouvi-la cantando o repertório de cena. Aos que não puseram os olhos sobre o espetáculo Diamante Verdadeiro dirigido por Fauzi Arap; a dobradinha Arap-Bethânia vem desde 1970 com o memorável Comigo me Desavim resta ouvir as faixas e imaginar as atitudes em palco de Bethânia.
Assim se faz, por exemplo, na faixa em que se aglutinam Cacilda (José Miguel Wisnik), trecho do poema Autopsicografia, de Fernando Pessoa (O poeta é um fingidor...) e Drama (Caetano Veloso). Ou nas comoventes interpretações de Navio Negreiro (Castro Alves) que ela emenda com Um Índio (Caetano Veloso).
Bethânia é demais! Onde enfia a voz é quase para sempre. Com seus vibratos agora menos fatais e capacidade de valorizar palavras faz pensar, inclusive, na pouca vergonha nacional que é a redistribuição de terras no Brasil Assentamento (Chico Buarque), eis um momento de reflexão, colocada lado a lado com Carcará (João do Vale).
Agora, não havia necessidade de fazer uso das palavras de Maysa, em Resposta, para e é essa a interpretação mais rápida devolver os insultos recebidos por ter gravado É o Amor (Zezé di Camargo). Para encerrar o disco, nada como uma atriz para cantar as desventuras e delícias de ser artista. E Na Carreira (Chico Buarque) foi a faixa escolhida para que ela se despedisse do público rendido em aplausos através de versos que expressam o ofício de ser artista: Hora de ir embora/ Quando o corpo quer ficar/ Toda alma de artista quer partir/ Arte de deixar algum lugar/ Quando não se tem pra onde ir.
Diamante Verdadeiro é indispensável aos crescidos de coração. Um disco feito para quem não é afeito à imparcialidade. Mais uma obra vigorosa de Bethânia, divina-ê, senhora absoluta... Uma Iansã de viva voz. Se Jorge diz é porque Jorge sabe. Então, eparrei-Oyá!!!
Senhora das Tempestades
(poema de Manuel Alegre)
Senhora das tempestades e dos mistérios originais / Quando tu chegas, a terra treme do lado esquerdo / Trazes a assombração / As conjunções fatais / E as vozes negras da noite / Senhora do meu espanto e do meu medo / Senhora das marés vivas e das praias batidas pelo vento / Senhora do vento norte com teu manto de sal e espuma / Há uma lua do avesso quando chegas / Há um poema escrito em página nenhuma / Quando caminhas sobre as águas / Senhora dos sete mares / Conjugação de fogo e luz / E no entanto eclipse / Trazes a linha magnética da minha vida / Senhora da minha morte / Quando tu chegas, começa a música / Senhora dos cabelos de alga / Onde se escodem as divindades / Trazes o mar, a chuva, as procelas / Batem as síladas da noite / Batem os sons, os signos, os sinais / E és tu a voz que dita / Trazes a festa e a despedida
Senhora dos instantes com tua rosa dos ventos / E teu cruzeiro do sul / Senhora dos navegantes / Com teu astrolábio e tua errância / Tudo em ti é partida / Tudo em ti é distância / Tudo em ti é retorno / Senhora do vento / Com teu cavalo cor de acaso / Teu chicote, tua ternura /Sobre a tristeza e a agonia / Galopas no meu sangue com teu cateter chamado / Pégaso / Senhora dos teoremas e dos relâmpagos marinhos / Quando tu chegas, dançam as divindades / E tudo em ti é alquimia / Tudo em ti é milagre / Senhora da energiaMaria Bethânia lança Diamante Verdadeiro, um de seus mais consistentes e emocionantes trabalhos
ReproduçãoReproduçãoMaria Bethânia: a voz vigorosa sempre a serviço da sensibilidade, rende bons momentos em Diamante Verdadeiro





