Senhora da voz de trovão
Elza Soares, no Cabaré: dignidade impressa, inclusive, em músicas saturadasAntônio Mariano Júnior
Tava ali, ó, encostadinho. Tão encostadinho que, às vezes, o repertório roçava o óbvio - ‘‘Trem das Onze’’, ‘‘Mania de Voc꒒, ‘‘País Tropical’’, ‘‘O Amanh㒒, ‘‘As Rosas não Falam’’, entre outras pepitas que fazem a alegria de platéias nada exigentes. Acontece que é preciso ter muita personalidade para cantar essas canções. E isso Elza Soares tem. E de sobra. Por isso, o show ‘‘Carioca da Gema’’, apresentado no último sábado, no Cabaré do Filo, acabou agradando a todos porque além de imprimir dignidade a algumas canções manjadas, Elza Soares as redesenhou magnificamente com seu potente vozeirão. Ela é danada! Ela é poderosa! Ela é uma diva!! Ela, portanto, pode tudo!! Tudo!
De cara, Elza ganhou o público abrindo o show resgatando Tito Madi com sua ‘‘Balanço Zona Sul’’. Era só o começo porque havia muitos motivos para se arrepiar. A versão para ‘‘Antonico’’ (Ismael Silva), por exemplo, pode-se dizer com pouquíssima margem de erro que tornou-se definitiva na voz de Elza Soares. Ah, sim, essa senhora de voz de trovão deixou bem claro - e audível- que está na melhor forma vocal - foi do grave ao mais agudo com uma naturalidade surpreendente. E, obviamente, abusou sensacionalmente de sua rouquidão.
O trio que a acompanhou também não ficou para trás. O diálogo travado entre o tecladista Alberto Farah (que imprimiu à maioria das canções improvisos jazzísticos) e o baixista Jimmy Santa Cruz foi perfeito. Já o baterista Afonso Vieira se limitou a acompanhar discretamente os colegas em palco já que Elza, muitas vezes, dava o contratempo com sua percussão vocal em algumas músicas.
E Elza se entregou. E cantou. E sambou. E se mostrou feliz. E recebeu flores. E voltou ao palco duas vezes. E se emocionou. E emocionou Deus e o mundo ao cantar ‘‘Meu Guri’’, sentada ao chão. Uma Pietá pós moderna. Portanto, como não sentir suas dores? Como não se deixar levar por sua voz? Como não acompanhar a ginga de seus passos? Como não se atentar ao vai e vem dos canutilhos de seu vestido?
No palco, dá para se ver as dores e as alegrias - todas sinceras - dessa mulher que desceu o morro e não morreu no asfalto. Que precisou dançar miudinho para que a vida não a engolisse. Que precisou continuar a cantar para não enlouquecer. Que solfeja o Hino Nacional com sua voz gutural; voz de povo sofrido, de lata d’água na cabeça. De um povo fodido que, por falta de opções, precisou desenvolver o otimismo pra não morrer à mingua!
No show do Cabaré (‘‘tem cidades grandes que não têm peito para fazer um festival como esse’’, soltou ela), Elza marcou muitos gols. Aliás, ao final de algumas canções Elza dobrava o joelho e chutava uma bola imaginária.
Reverência? Homenagem ao amor de pernas tortas? Elza, preta do morro, diva do asfalto, ‘‘veado gostoso’’, tome essas mal traçadas linhas como uma declaração de amor. Por escrito!!

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