SENHORA DA CRÍTICA
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de novembro de 2000
Elisa Marilia Carneiro De Curitiba 
O Sesc-Paraná prepara a montagem de sete peças do dramaturgo brasileiro Luis Carlos Martins Pena (1815-1848). As peças serão montadas em Curitiba e em outras quatro cidades do interior. A intenção do projeto Identidade dos Palcos é formar núcleos teatrais em várias localidades. Para tanto, os técnicos estão recebendo orientação do diretor e ator Tadeu Aguiar, da crítica e estudiosa teatral Bárbara Heliodora, do coreógrafo e bailarino Roberto Oliveira e do cenógrafo e figurinista Marcelo Marques. Em março acontece o Festival Martins Pena, nas cidades participantes.
De acordo com a técnica de apoio operacional na área cultural do Sesc-Paraná Áquilla Maris Nicz, serão montadas as peças O Noviço, em Marechal Cândido Rondon; Filmes de Um Pedestre, em Ponta Grossa; Os Irmãos das Almas, em Paranavaí; O Judas em Sábado de Aleluia, em Londrina; e As Desgraças de uma Criança, no Sesc Terceira Idade; Quem Casa Quer Casa, no Sesc-Centro e O Juiz de Paz na Roça, no Sesc da Esquina, as três em Curitiba.
No total, estarão envolvidas cerca de 25 pessoas em cada unidade do Sesc. Os testes de seleção para atores estão em andamento em Curitiba, Paranavaí, Londrina, Marechal Cândido Rondon e Ponta Grossa.
Em entrevista exclusiva à Folha Dois, em São Paulo, a crítica teatral Bárbara Heliodora falou do projeto, da obra de Martins Pena, do teatro nacional, do Festival de Teatro de Curitiba e de sua experiência profissional.
A senhora tem estado algumas vezes em Curitiba, as visitas acontecem em função de algum projeto?
Fui chamada no Sesc-PR para falar sobre Martins Pena. Eles estão com um projeto que achei interessantíssimo, que nasceu do contato com o Tadeu Aguiar, que já tem uma carreira de teatro em escola e viaja muito pelo Brasil. Ele conversou com o pessoal do Sesc e propôs um projeto envolvendo cidades do interior e a capital do Estado. Cada uma vai montar uma peça diferente do Martins Pena. Depois vão se visitar mutuamente. De maneira que sete espetáculos serão vistos em cinco cidades, os grupos de Curitiba encenarão três.
Além da senhora quem mais participa do projeto?
O Zé Renato deu aulas de direção. Ele já dirigiu Martins Pena e foi dar umas dicas sobre a época, o estilo, etc. Depois, vão levar um cenógrafo para dar uma orientação do que se pode fazer com recursos simples e também vai ter um workshop de movimento. Os diretores vão receber embasamento para poder trabalhar com mais informação. O ideal é que essas montagens se tornem o núcleo de grupos permanentes nessas cidades.
A escolha de Martins Pena foi proposital?
Sou fã do Martins Pena. Acho extraordinário o quanto ele é brasileiro, mesmo tendo escrito a primeira peça onze anos depois da Independência. E no entanto as obras têm um clima absolutamente brasileiro. É uma coisa extraordinária. Não é um autor português, um autor de cultura portuguesa. Ele trata da vida, do cotidiano do Brasil. O mais surpreendente é que ele, sem antecedentes teatrais (não havia uma vida teatral no Brasil, nem houve uma herança teatral vinda de Portugal), é simplesmente um talento. Ele deve ter lido muito teatro clássico em inglês e francês, porque a gente sente a presença de MoliSre e de Shakespeare. Não é que ele tenha feito coisas parecidas, mas deve ter aprendido muito com eles. Martins Pena cria coisas genuinamente brasileiras e muito válidas para o teatro, cenicamente.
Quais as principais peças de Martins Pena que têm essa visão brasileira do cotidiano?
O Noviço é a mais famosa. Tem As Casadas Solteiras, Dois Ingleses Maquinistas, As Desgraças de uma Criança, Quem Casa Quer Casa, e por ai vai. Ele escreveu 21 comédias. Duas ficaram incompletas. Ele escreveu também cinco dramas horríveis. Estava em moda, então, ele muito jovem, tentou escrever dramas e não acertou. O talento dele era para a observação local e a comédia, que ele fez lindamente. É um autor precioso na história do teatro brasileiro.
O que a senhora tem a dizer sobre o teatro nacional da atualidade?
O teatro sofre de elefantismo. Está multifacetado. Os anos da censura foram muito danosos porque acabaram com a carreira de vários autores e não deram aos jovens uma chance para começar. De maneira que tudo o que nós temos apareceu depois do fim da censura. Houve mais um renascimento do teatro brasileiro mas que, volta e meia, leva uma pancada na cabeça. Estava indo tudo muito bem, por volta dos anos 50. Veio a censura e parou tudo. Pintor pode pintar e ser descoberto cem anos depois, mas autor teatral tem de ser montado. A censura foi muito prejudicial. Depois houve um recomeço que justifica o aparecimento do besteirol, que é uma forma simples, mas muito eficiente de fazer teatro. Foi uma grande escola para esses autores jovens. Para o Mauro Razzi e o Falabella escrever besteirol deu uma experiência cênica que depois eles aproveitaram em outras peças. Foi mesmo um fenômeno de recomeço, de renascimento do teatro brasileiro. É impressionante ver o percentual de peças nacionais que estão em cartaz. É muito alto. Há um interesse pelo texto nacional. Pode ser ruim, pode ser bom, mas está acontecendo. Eventualmente há peças muito interessantes. A quantidade é necessária também. Inclusive aqueles autores que eu chamo de bananeria de um cacho só. De repente a pessoa escreve uma peça, porque está com aquilo guardado lá dentro, depois não faz mais nada. Mas não faz mal, se uma for boa, o autor já prestou um serviço.
Que avaliação a senhora faz do Festival de Teatro Curitiba?
Acho que o Festival de Curitiba está grande demais. Não está havendo uma seleção muito rigorosa. Está recebendo muita coisa que não deveria estar lá. Por outro lado, se essas pessoas trocassem idéias enquanto estivessem em Curitiba, seria muito positivo para o teatro de modo geral. Mas isso não acontece. Eles chegam, se apresentam e vão embora. Seria muito importante, uns verem os espetáculos dos outros. Este último festival foi o que menos fez esforço para um intercâmbio. Das outras vezes havia conferências e uma série de outras coisas, mas esse último, achei que ficou um pouco no vácuo com muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Parece que está grande, nas na realidade está dispersivo.
E no eixo Rio-São Paulo, o que a senhora tem visto?
Últimamente, o que mais me impressionou foi A Controvérsia, texto de CarriSre, dirigido por Paulo José, com o Matheus Nachtergale, Otávio Augusto, Ivan Albuquerque. É uma peça de muito conteúdo, que discute se os nativos do Novo Mundo teriam alma ou não, um tema discutido pela Igreja. A peça é muito bem armada, o espetáculo muito bom, com texto bem amarrado. Vi também Mais Perto, cujo texto não é muito bom mas conta com um espetáculo bem feito. O Espetáculo da Mulher sem Pecado é bastante caprichado também. A peça é fraca, mas trata-se de um bom espetáculo. Depois tem aquelas do Rio. As comédias leves que, de modo geral, têm textos fracos, mas salvam-se pelos espetáculos com boa produção como Duas Mulheres e um Cadáver, com a Débora Bloch e a Fernanda Torres. O espetáculo é muito bom, bem dirigido, bem interpretado. A Continuação da Partilha e A Vida Passa são simpáticos, engraçados, também.
Como foi a sua formação na área teatral?
Fiz a Faculdade de Filosofia no Rio de Janeiro e me graduei nos Estados Unidos em literatura inglesa. Havia muitas disciplcinas ligadas ao teatro, como Shakespeare, História do Teatro Universal, Teatro Antigo, Teatro Moderno, mas o mais importante foi que eu assisti muito teatro, enquanto estava estudando. Os cursos me ensinaram muito a fazer análise. Depois casei, tive filhos, fiquei um pouca afastada. Começei a frequentar o Teatro Tablado, por que queria ver teatro. Sempre tive muita curiosidade sobre a realização do espetáculo. Para mim o grande milagre é transformar uma página escrita num espetáculo. É uma coisa maravilhosa. Com a Maria Clara Machado, no Tablado, eu via o processo de ensaio, mesmo de peças infantis. Via o processo da transposição da página para o palco.
Como a imprensa a conquistou para suas páginas?
Sempre gostei muito de fazer análise de texto. Em 1957, saiu da Tribuna da Imprensa a pessoa que fazia críticas. Começei lá. Mas fiquei só quatro meses. Fui então para o Jornal do Brasil, em 1958. Mas foi um Deus nos acuda, porque meu primeiro texto bateu com o do Mário Nunes que estava lá há muitos anos. Eu quis sair mas não deixaram, então o Jornal do Brasil ficou com dois críticos com posições completamente diferentes. Eu escrevia no suplemento e o Mário no corpo do jornal. Fiquei lá seis anos. Ensinei na UniRio. Até que o Osvaldo Mendes me levou para fazer crítica na revista Visão. Fiquei lá cinco anos, até ser chamada para O Globo, onde estou há dez anos.
Os críticos jovens estariam preparados para este trabalho como a senhora?
Eu tive muita sorte por ter estudado fora e ter tido referências de espetáculos de várias naturezas. Vi teatro na Inglaterra, na França, na Alemanha, na Itália e por aí vai. Os referenciais de um crítico hoje em dia, que queira começar, estão muito pobres. O teatro está relativamente pobre, principalmente há um ano, quando houve uma retração de patrocínios. Há muitos espetáculos de dois personagens, monólogos. Acho que a experiência da variedade teatral falta para a visão do crítico, que tem de ver muita coisa para poder ter uma visão geral, referências, muita leitura, formação teórica. A experiência do ver é que está fraca, para a formação dos novos críticos.


