Sempre na mídia
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domingo, 19 de janeiro de 2003
Reportagem Local 
Se os leitores quisessem, os Beatles seriam destaques todos os dias no noticiário. Nos últimos dias, por exemplo, os fab four voltaram à mídia mundial com o anúncio da descoberta de 500 fitas originais na Holanda. O suposto tesouro foi encontrado após uma operação policial contra a pirataria de CDs.
O material conteria registros de ensaios e sobras de estúdio das sessões de gravação do álbum ''Get Back'', de janeiro de 1969. No Brasil, foi o mercado editorial que levantou a bola do quarteto de Liverpool esta semana. A revista Cult, antes especializada em literatura, chegou ontem às bancas estampando John, Paul, George e Ringo na capa com o título ''O Eterno Retorno do Mito''.
A edição especial traz um dossiê de 24 páginas reunindo textos sobre a trajetória da banda, o impacto revolucionário de suas experimentações musicais e sua influência na música brasileira. O tradutor Paulo Miglicci abre a série de artigos com uma míni-biografia do grupo. O maestro Júlio Medaglia lembra a importância dos ingleses para a Jovem Guarda e o tropicalismo.
O poeta Paulo Henriques Britto analisa o célebre ''Álbum Branco'', salientando que o disco resumiria o espírito da revolução cultural de 1968, além de fazer um levantamento geral da história do rock e prenunciar o que viria a surgir nas década seguintes. O músico Mario Manga, por sua vez, aborda as invenções sonoras propostas no álbum ''Revolver'', considerado por muita gente o melhor disco de rock de todos os tempos.
Fechando o dossiê, Pedro Fernandes Galé escreve sobre o longa-metragem ''It's been a Hard Day's Night'' (1964), recém-lançado no país em VHS e DVD. Mas os beatlemaníacos também têm o que vasculhar nas livrarias. Acaba de chegar às prateleiras o volume ''Plastic Jesus'', uma ficção histórica calcada na trajetória real da maior banda de todos os tempos.
A autora, Poppy Z. Brite, é uma das revelações das letras norte-americana. Seus romances ''Lost Souls'', ''Drawning Blood'', Exquisite Corpse e ''The Lazarus Heart'' foram saudados como renovadores da literatura gótica garantindo-lhe sucessivos prêmios nos anos 90. Ela é autora também de uma biografia de Courtney Love. Em ''Plastic Jesus'', Poppy faz uma reconstituição livre do percurso dos Beatles.
Inspira-se na biografia dos quatro componentes para contar uma versão fantasiada na qual John Lennon e Paul McCartney seriam não apenas parceiros musicais, mas também amantes homossexuais. Na brincadeira, Liverpool vira Leyborough, Beatles vira Kydds, Lennon vira Seth Grealy, Paul vira Peyton Masters, o empresário Brian Espstein vira Harold Loomis e o single de estréia ''Please please me'' vira ''Cry My Tears Away''.
A história atiça a imaginação ao remeter o leitor a rumores que sempre acompanharam a banda. É sabido que o manager da banda, Brian Epstein, era gay não assumido, o que lhe causava crises de depressão. No livro, o Harold Loonis que o protagoniza apaixona-se e mantém relações com Seth Grealy/John Lennon. Ao ser assassinado por um amante (na vida real ele teria morrido de overdose em 1967), ele provoca a aproximação íntima entre Seth e Peyton/Paul, que passam a constituir um casal.
O romance abre com o assassinato de Seth/Lennon. Ao longo das páginas, os episódios vividos pelos Beatles são repassados na ficção o estouro dos discos, o assédio das fãs histéricas, a experiência das drogas, as viagens de LSD e o fim das turnês. A autora encaixa na trama o célebre bar Stonewall Inn, de Nova York, que tornou-se uma referência para as lutas dos homossexuais do mundo inteiro quando seus frequentadores resolveram reagir pela primeira vez à violência e perseguição policial.
A revolta, ocorrida em 1969, é exibida na tevê e assistida pela dupla em Londres. Estimulados com o que vêem, decidem tomar avião e desembarcar no dia seguinte no local. Ao serem descobertos pelos repórteres, dão entrevistas anunciando que ''estão juntos'' há dois anos. Ao final do livro, Poppy Z. Brite escreve um posfácio em que se antecipa a eventuais críticas por ter ''profanado'' a memória dos Beatles. Aos fanáticos, alerta que os quatro artistas sempre se posicionaram contra o preconceito. Poppy tem 35 anos e uma tatuagem de Lennon no braço. O livro chega às prateleiras pela editora Conrad.


