Sempre de lho no lance
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de julho de 1997
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
Orlando Kissner, 44 anos, ex-torcedor do Britânia, hoje fiel torcedor do Coritiba, está entre os melhores e mais conceituados fotógrafos brasileiros de futebol. De reputação internacional, recebeu convites de importantes agências espalhadas pelo mundo. Por exemplo, poderia estar na França neste momento, mas não sabe falar francês, nem inglês, nem idioma algum que não seja o português. Também não quer aprender, pois acha que já passou da idade.
Integrante da nata do fotojornalismo esportivo, é amigo dos jogadores mais famosos. Suas fotos rodam o mundo, foram parar em out-door (aquela célebre do Romário de braços abertos, como se estivesse voando, ilustrou um anúncio de agência de viagens) e nas capas das principais publicações americanas e européias.
Começou a fotografar em 1974 no jornal O Estado do Paraná. Em 1983 foi cobrir férias em São Paulo, na Revista Placar, e lá ficou durante sete anos. Transferiu-se em 1990 para a Agência Estado, mas ano passado achou por bem abrir sua própria agência em Curitiba. Trabalha na Prefeitura Municipal, onde deu seguinte entrevista para a Folha2.
Como foi que você se direcionou para a fotografia esportiva?
Orlando Kissner - Sempre gostei de esportes. E tinha muita vontade de fazer fotos esportivas, que tivessem movimento. É uma coisa difícil de fazer, usa-se lente muito grande e o foco fica mínimo. É uma coisa complicada. Todo fotógrafo empolga-se quando consegue fazer uma boa foto. Foi o que aconteceu comigo. Aí o Sérgio Sade me deu uma chance de ir a São Paulo na revista Placar, cobrir férias do J.B. Scalco, que era um dos melhores do Brasil. Ele acabou morrendo e fiquei no seu lugar. Hoje, sábado e domingo, se não tiver que fazer um futebolzinho, fico maluco. Adoro isso.
Para fotografar futebol conta-se com macete ou intuição?
Orlando Kissner - É uma questão de experiência. Se eu trabalho numa agência nacional de notícias, como a Agência Estado, e, digamos, joguem o Corinthians e Coritiba, entro no campo sabendo onde ficar: no ataque do Corinthians porque trabalho numa agência que embora nacional, é paulista. Tem mais importância uma foto do Túlio, do Donizete do que um jogador do Coritiba. É mais ou menos por aí. Se for um jogo do Brasil x Inglaterra, vou ficar no lado brasileiro, mesmo que a seleção leve de quatro. Se o Brasil ganha você mostra a alegria brasileira; ou então a tristeza do jogador perdendo gol, cabisbaixo. Você vai para o lado que identifique nacionalmente o jogo de futebol.
E como se faz para clicar no instante da ação?
Orlando Kissner - É uma questão de prática. Você vai fazer um jogo e quando revela o filme vai vendo que perdeu um monte de lances legais. Aí vai para casa imaginando como fazer; jura que na próxima vez não vai perder. Mas perde na segunda, terceira, quarta até conseguir. Aí sim é o auge, uma coisa maluca. Na Copa do Mundo o Bebeto fez dois gols contra a Holanda. Nas duas vezes que ele correu, comemorando, não consegui fazer as fotos. O terceiro gol foi do Romário, quando ele veio e abriu os braços, aí fiz e foi capa no mundo inteiro. É uma questão de prática e vontade.
A foto esportiva é a arte do movimento?
Orlando Kissner - Tem muito movimento. É uma coisa complicada você fazer. Tanto que os grandes jornais, principalmente nos Estados Unidos e Europa, têm que contratar gente de fora para poder fazer esse tipo de foto. Até o ano passado, quando estava na Agência Estado, trabalhei com três fotógrafos japoneses. Dei aula a eles sobre como fazer futebol. Eles vão ficar quatro anos no Brasil cobrindo todos os campeonatos para aprender a fotografar futebol, que é uma coisa nova no Japãoá. Isso para entrarem nas revistas às quais trabalham. Eles fazem qualquer foto, menos futebol.
Os fotógrafos esportivos são minoria no Brasil?
Orlando Kissner - O Estadão tem 40 fotógrafos e no máximo quatro são especialistas em futebol. O Globo geralmente tem 50 fotógrafos e no máximo oito sabem fazer bem futebol. Na Folha de São Paulo quatro ou cinco se sobressaem na área. É uma coisa meio especializada. Se você consegue fazer boas fotos, a concorrência tem que ir atrás. Isso é que vale. Em tempos de Copa do Mundo as grandes agências internacionais como a France Press, Transpress, Reuters, Associate Press têm que botar essas fotos no mundo inteiro. Eles não sabem como fazer e precisam de uns 30 fotógrafos para cobrir toda a Copa. Então vão buscar gente na Austrália, Brasil, Argentina, lugares onde o futebol tenha maior divulgação.
Você já foi convidado para trabalhar nessas agências?
Orlando Kissner - Fui várias vezes, mas tinha vínculo com a Agência Estado. Então compraram fotos minhas da agência. Na Copa do Mundo de 94, quando o Brasil ganhou da Holanda de 3 x 2, o terceiro gol foi do Romário. Ele saiu correndo de braços abertos e eu fiz a foto. A Reuters negociou com a agência e a imagem rodou o mundo inteiro. Vi a foto do Romário no Los Angeles Time, com meu nome do lado.
Quando isso acontece a emoção é a mesma de um gol em jogo de decisão?
Orlando Kissner - É a mesma coisa que você entrar num estádio com 100 mil pessoas, cantar o Hino Nacional e todo mundo te olhando. É superemocionante. Mas o prazer mesmo é quando você vai fazer a foto, você sabe como está fazendo. É uma coisa gratificante.
Os melhores lances são dos maiores jogos?
Orlando Kissner - Por incrível que pareça as melhores fotos são dos jogos de menor repercussão, os de segunda divisão. Time de menor categoria tem jogo mais violento, um torcedor dá uma pancada na cara do juiz e isso dá ibope, mas é mais difícil acontecer entre os times profissionais. Agora, rende mais fotografar Copa do Mundo, decisão de campeonato.
As atuais leis do futebol são prejudiciais ao trabalho dos fotógrafos?
Orlando Kissner - Completamente. E não são só as leis. Hoje quem comanda o futebol e a lei dos cartolas, é a televisão. A TV fica onde ela quer no campo, bota as câmaras onde der: dentro do gol, na trave, em tudo. E o fotógrafo é limitado. Fica na bandeirinha de escanteio, e dali não pode sair. Ou faz o trabalho dali, ou não faz. Apesar disso a TV corre atrás do fotógrafo - eles pegam o jornal no dia seguinte e não sabem como é que pegamos a cena. Pode ver - antes acontecia o gol e vinha o replay em seguida. Agora não: marca-se o gol, a TV mostra o sujeito comemorando para depois jogar com o replay. Eles têm oito, dez câmaras para fazer o que a gente faz sozinho com uma máquina fotográfica.
Além desse têm outros problemas?
Orlando Kissner - Temos um problema sério que é a iluminação. Você usa um filme de 400 ASA e tem que puxar para 1600 ASA. No Paraná Clube ou no Coritiba tem que puxar para 3200 ASA. O jogador parece que está com catapora, granula tudo. Eles fazem a iluminação que o próprio sujeito que está transmitindo o jogo não consegue identificar quem é o jogador da lateral direita. Ele conhece pela experiência, do jeito que o cara corre. O número da camiseta ele não vê, porque a iluminação é ruim.
Há burocracia nesse meio?
Orlando Kissner - Sim. Para você entrar no campo exigem mil documentos. Na Copa do Mundo de 94 entravam 160 fotógrafos no campo, mas tinham 714 inscritos. Aí eles iam pelo currículo das pessoas. É um vestibular.
Quantas Copas você já cobriu?
Orlando Kissner - As três últimas: de 86, 90 e 94. Agora, se Deus quiser, devo ir para a Copa da França.
Corre uma história de que a Nike convidou-o para a Copa...
Orlando Kissner - É o seguinte: empresas que patrocinam as seleções, como a Umbro, a Nike, a Diadora pedem currículos. A Nike pediu o meu para a Agência Estado. Ele foi aprovado e agora vamos esperar até 98, para ver se a gente fecha um contrato e vou, pago por eles. Estou na mira de várias agências, mas até agora não tem nada certo. Só sei que quero ir.
Como é sua relação com os jogadores?
Orlando Kissner - É mais fácil você lidar com presidente da República que com jogadores. O jogador de futebol tem uma linguagem completamente diferente. É tudo gíria, você tem que presenteá-lo, mostrar a foto, contar como é que foi. Aí ele faz qualquer coisa por você. Entre meus amigos estão o Ronaldo, do Corinthians, o Romário com quem me dei muito bem na Copa, o Túlio que é sensacional, o Marcelo, o Viola, o Cafu. O Zetti também é muito bom.
Você arma esquema com os jogadores para fazer boas fotos?
Orlando Kissner - Esquema do jogador com o fotógrafo existe com uma meia-dúzia de profissionais. São sempre os mesmos cobrindo os grandes jogos, indo para as Copas. A gente chega para o jogador e diz olha, se fizer um gol a gente está neste canto. A gente não consegue ficar do outro lado porque a Fifa não deixa, a Federação não deixa.


