Semifinalista do Prêmio Visa de MPB lança CD independente
São Paulo, 29 (AE) - Alexandre Leão foi um dos semifinalistas da edição vocal do Prêmio Visa de MPB, realizado no início do ano pela Rádio e pela Gravadora Eldorado. É um cantor e compositor baiano, já conhecido em sua terra, desconhecido aqui. "Minha Palavra" é seu primeiro disco, produção independente realizada com o patrocínio de organismos de cultura do governo da Bahia (informe-se com a Vila Rica Produções, e-mail: [email protected]).
No Prêmio Visa, Alexandre privilegiou o intérprete. Encantou platéia e jurados com o timbre muito peculiar, levemente anasalado - entre as músicas que escolheu para cantar estava "Folha de Papel", de Sérgio Ricardo, cantor de voz anasalada. Em "Minha Palavra", ele mostra o compositor, em 12 belas faixas - canções, toadas, boleros, bossas. Bolero-bossa é "Não Sei o Que Acontece", só dele, uma das faixas mais bonitas do disco, em que o piano de Roberto Monsalve desenha um jogo de perguntas e resposas com o violão (muito bom) do cantor. "Não Sei o Que Acontece", aliás, é uma bossa de articulação joãogilbertiana, com direito a tum-dum na segunda vez, mas Alexandre não está imitando ninguém: é um legítimo herdeiro do movimento.
Prova-o em outra belíssima bossa, essa sem toque de bolero (mesmo que a bossa seja herdeira do samba-canção, que é primo do bolero): "Anda", que tem letra de J. Velloso, é bossa clássica, inclusive nas dissonâncias - a primeira nota, prolongada, é sétima maior do tom e traz o clima de estranhamento e tristeza que a letra traduz: "Anda/ Por toda a cidade/ Espalhando a saudade/ Pensando que o amor/ É andar". E, mesmo que varie ocasionalmente o sotaque, Alexandre Leão é um cantor moderno da bossa nova, no mesmo sentido em que sua conterrânea Rosa Passos é uma cantora moderna da bossa: há, efetivamente, semelhança na maneira como eles abordam as canções
como um fosse o masculino da outra, com igual precisão no canto
mesma inteligênica nas divisões, nas pausas, na chegada até a alma das canções.
"Minha Palavra" tem, naturalmente, o filtro da visão da bossa nova de Caetano Veloso, mas, mais uma vez, é uma sugestão auditiva natural, por todos os motivos - Caetano é um adorador de João Gilberto, afinal. No entanto, Alexandre vai, em algumas composições, buscar ainda outras formas de fazer bossa, como em "Quebranto", só dele - a divisão interna do compasso faz lembrar a maneira como Marcos Valle trabalhava a marcação ritmica. A letra denuncia o poeta: "... E até todo o quebranto que há/ Não foi bastante pra conquistar/ Nem todo santo, todo orixá/ Abriu seu coração" - essas palavras de amor.
A chegada de Alexandre Leão ao mercado de discos precisa ser saudada como a bela novidade que é: um compositor com estilo
um violonista seguro, um cantor - finalmente um bom cantor - num mercado que tem poucas vozes masculinas (e, das poucas, a maior parte mal aproveitada). Melhor ainda será se alguma gravadora intreressar-se pela distribuição do CD. (M.D.)





