Yoshiya Nakagawara Ferreira: pesquisa sobre as mulheres na cafeicultura e trabalhos artísticos que têm como tema o produto tão importante na formação do Norte do Paraná
Yoshiya Nakagawara Ferreira: pesquisa sobre as mulheres na cafeicultura e trabalhos artísticos que têm como tema o produto tão importante na formação do Norte do Paraná | Foto: Fábio Alcover



Desde que o mundo é mundo, o homem busca um lugar onde possa fazer seu lar, tirar seu sustento e criar laços, sejam eles familiares ou não. Quando sua terra natal não proporciona isso – seja por falta de riquezas naturais, guerras ou disputas de território - o indivíduo sai em busca de outras opções. O Brasil já foi a pátria sonhada de vários grupos étnicos que, forçados a abandonar suas terras, foram acolhidos e nos enriqueceram, não só do ponto de vista cultural, no sentido antropológico, mas também do ponto de vista econômico. Muitos desses grupos vieram parar no Norte do Paraná, sem contar os brasileiros, oriundos de lugares como Minas Gerais ou de São Paulo, que também fizeram, especialmente de Londrina, a Capital do Café, sua morada.

No Brasil, a mão de obra imigrante se destinava a suprir a carência de trabalhadores na grande lavoura de exportação, porém, no Paraná isso foi desde logo colocado no sentido de se criar uma agricultura de abastecimento, vindo para as terras florestais virgens ou para os campos do sul. Londrina, mais especificamente, experimentou um alto índice de crescimento populacional e econômico durante todo o século XX, amparado inicialmente pela plantio e comercialização do café. Chegaram aqui japoneses, alemães e italianos, entre outros tantos sobre os quais aprendemos e estudamos desde a escola.



O que não é muito citado, nem relembrado historicamente é o papel da mulher trabalhadora do setor cafeeiro que, ao acompanhar os maridos na lida diária na roça, proporcionaram uma base, não somente a eles, mas também a toda nossa agricultura. E são essas mulheres o tema da exposição intitulada "Mulher 2017", do artista plástico Edson Massuci, que será aberta na segunda-feira (6), no Museu Municipal de Rolândia. O artista aproveitou a proximidade com o Dia Internacional da Mulher, a ser comemorado na próxima quarta-feira (8), para homenagear as pioneiras e sua importância na colonização das cidades do norte paranaense.

CAFÉ E CONVIVÊNCIA
As mulheres exerceram um papel de enorme importância no início da agricultura cafeeira. Esse papel foi objeto de um estudo acerca dos imigrantes e do papel da mulher nesse meio feito pela artista plástica e professora sênior de geografia da Universidade Estadual de Londrina, Yoshiya Nakagawara Ferreira. Ela conta que inicialmente, as mulheres ajudaram até mesmo a fazer as covas para a plantação das mudas de café. Era uma rotina intensa - elas trabalhavam desde a derriçagem, o recolhimento, a abanagem, até a limpeza dos grãos – porém, de certo modo, reconfortante. "Alguns relatos mostram que as mulheres iam para a roça mais tarde que os maridos. Elas passavam a primeira parte da manhã em casa, fazendo pão, arroz e todo um trabalho doméstico e, somente depois, acompanhadas dos filhos pequenos, se juntavam aos maridos no campo para o almoço e o trabalho no cultivo cafeeiro. Para elas, era um trabalho recompensador, porque, apesar das dificuldades do trabalho braçal, era no campo que a família se juntava e tinha seus momentos de convivência diária".

Yoshiya também traz em seus conhecimentos, juntamente com a pesquisa, histórias contadas pela mãe e tios, que tiveram uma convivência mais próxima com essa realidade. Os tios tiveram até mesmo uma máquina de café, na vizinha cidade de Rolândia. Segundo esses relatos, as crianças menores, antes de terem idade de trabalhar com os pais, faziam dos campos o seu quintal de diversões. Por lá brincavam, corriam e pulavam. Os cafezais também acabavam servindo de cama, para que os pequenos descansassem após toda a correria. Era debaixo da copa dos pés de café que dormiam as crianças, pertinho de onde os pais seguiam trabalhando até o entardecer. "O papel da mulher foi de coadjuvante, mas com uma importância na base, maior que o papel principal. Porque sem o apoio e sustentáculo da mulher, com alimentação, criação dos filhos, seria impossível toda essa evolução na agricultura".

Tela de Yoshiya Nakagawara Ferreira: as cores do café numa pintura que lembra os fetos e a fertilidade
Tela de Yoshiya Nakagawara Ferreira: as cores do café numa pintura que lembra os fetos e a fertilidade | Foto: Fábio Alcover



Então, o trabalho que era ao mesmo tempo uma estadia feliz, de convivência com o marido, filhos e familiares, também era um momento de dificuldade, com os percalços das colheitas mal sucedidas e das geadas. Importante ressaltar também que, as trabalhadoras que vieram após a colonização, as chamadas boias-frias, sofreram ainda mais. Além de não ter esse contato próximo com a família, elas sofreram com a remuneração mais baixa - por não terem a mesma força física que os homens - e com o preconceito dos colegas de trabalho que, muitas vezes, não respeitam as mulheres rurais. Ao abordar essas realidades, Yoshiya aponta dois momentos históricos do Norte do Paraná que tiveram a participação das mulheres como trabalhadoras. Da cafeicultura organizada em torno de núcleos familiares ao trabalho sem vínculo empregatício, a agricultura paranaense não seria a mesma sem a mão de obra feminina em seu trabalho diário e nem sempre reconhecido. Além de analisar essa realidade como pesquisadora, Yoshiya Nagakawara fez do café tema constante de suas obras artísticas, em seu ateliê em Londrina há muitas telas que representam a era de ouro das sementes, floradas e colheitas que se sucederam como ciclos produtivos e – por que não? - femininos, como tudo que dá bons frutos.



‘Café deixava as mulheres falantes’
Marisa Augusto foi uma trabalhadora dos cafezais paranaenses. A aposentada, de 72 anos, trabalhou na colheita desde os oito anos e conta que o café fez e faz parte de sua vida até hoje. Ela se lembra até mesmo do cheiro dos grãos sendo torrados. "A gente chegava e sentia o cheirinho de café antes mesmo de entrar em casa. A gente torrava, moía e passava um café purinho, café cereja. Ele tinha um sabor tão gostoso, que há tempos eu não sinto igual". Ela conta que a rotina era dura, além de participar da colheita, Dona Marisa ajudava a levar os grãos para o terreiro, onde eles eram espalhados e protegidos da chuva para a secagem. No entanto, ela diz sentir falta desse contato com o campo. "Sempre que eu penso nessa época da minha vida, eu sinto muita saudade disso tudo. Sinto falta de trabalhar na roça e da natureza. Era uma coisa muito bonita de se ver, aquele montão de café, protegido para não tomar chuva", relembra.

Marisa Augusto trabalhou nas lavouras e nunca abandonou o tão querido cafezinho
Marisa Augusto trabalhou nas lavouras e nunca abandonou o tão querido cafezinho | Foto: Anderson Coelho



Dona Marisa, após sair da roça se casou com um provador de café. O marido, já falecido, trabalhou durante anos no Instituto Brasileiro de Café (IBC), e foi com ele que ela aprendeu mais sobre os tipos e derivações do "Ouro do Brasil", como ela mesma gosta de chamar. E são essas lembranças que ela guarda consigo até hoje. "Se eu pudesse eu viveria 200 anos, pra lembrar, voltar e viver tudinho de novo. Porque essas experiências e conhecimento são coisas que ninguém pode tirar da gente".

Antes de servir e tomar uma xícara de café, Dona Marisa comenta um fato que pode ser visto como uma curiosidade. Em décadas passadas, as mulheres não eram muito estimuladas a tomar a bebida, pois o líquido excitante as deixava falantes demais. Entre risos ela conta que, em todos esses anos, sempre fugiu à regra, pois jamais abandonou o tão querido cafezinho. (D.S.)

Imagem ilustrativa da imagem Sementes da cafeicultura
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