São Paulo - Demonstrações de fé, é fato, não têm religião. Dos católicos aos protestantes, os seguidores dos mais variados credos participam, pelo menos uma vez na vida, de algum tipo de peregrinação para renovar suas virtudes. Mas, às vésperas da Semana Santa, são os seguidores da Igreja Católica Apostólica Romana que tomam as estradas, lotam excursões e organizam passeios para conhecer ou rever seus mais importantes santuários. Nas últimas décadas ficou difícil distinguir o peregrino do turista e a romaria de uma viagem de lazer.
No mais católico dos países são aproximadamente 125 milhões de brasileiros obedientes a João Paulo II, de acordo com o censo 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não poderia ser diferente. Santuários consagrados, como o de Aparecida, no interior de São Paulo, recebem milhares de turistas em datas festivas. Outros, mais recentes, como a visitação a Nova Trento, em Santa Catarina, terra da única santa brasileira, Madre Paulina, não param de crescer. E o fenômeno está longe de se esgotar.
''O turismo religioso está crescendo. Há um reavivamento do setor, as pessoas estão buscando novas experiências de fé'', diz o professor do departamento de Teologia e Ciências Religiosas da PUC-SP Edin Sued Abumanssur, autor do livro ''Turismo Religioso Ensaios Antropológicos'' sobre Religião e Turismo.
Apesar dessa procura cada vez maior, pouco se sabe daqueles que se aventuram pelos destinos de peregrinação Brasil afora. Um levantamento da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), em 1999, mostrou que há 15 milhões de brasileiros dispostos a seguir para um destino religioso a maioria passa um fim de semana em visitação. Dado mais recente, do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), de 2002, aponta que 7% dos viajantes brasileiros têm predileção por roteiros sinônimos de religiosidade o índice chega a 11% entre os nordestinos.
É gente como a dentista Marta Regina de Freitas Arato. Entre 1º e 9 de março e, mais tarde, de 8 a 12 de outubro do ano passado, ela se dedicou a percorrer o Caminho da Fé, roteiro de 400 quilômetros por cidades do interior de São Paulo e de Minas, que termina em Aparecida. ''Valeu cada quilômetro, é uma experiência muito particular'', diz a dentista, de 43 anos.
''Apesar de o objetivo ser chegar à Basílica de Aparecida, o grande lance é o caminho interior que cada um descobre'', comenta Marta. ''O espírito peregrino compreende muita solidariedade. Você aprende a ajudar e, mais que isso, a ser ajudado'', diz. ''Corpo e mente têm de estar preparados e, quer saber?'', pergunta. ''O lado emocional pesa mais que o físico. Não é preciso ser atleta, porque todo caminhar é um exercício espiritual.''
A disposição de Marta contrasta com a organização dedicada ao turismo religioso pelos órgãos responsáveis. Pessoas que fazem o mesmo roteiro que ela não constam em nenhuma estatística oficial.
A Bahia Estado de acentuado credo por excelência , por exemplo, não contabiliza o volume de turistas de cunho religioso. Segundo estatísticas oficiais, foram à Bahia cerca de 4,3 milhões visitantes em 2003. Esse número exclui pelo menos 1 milhão de pessoas o equivalente ao fluxo de turistas que viajam ao Estado por causa do turismo religioso.
O presidente da Bahiatursa, órgão de turismo do Estado, ressalta como maiores atrativos da Bahia a cultura e a história. ''O legado religioso português resultou em muitas igrejas; só numa praça do Pelourinho há cinco'', diz Cláudio Pinheiro Taboada. Em Salvador seriam umas 300, o que faria dela a capital com mais templos religiosos do País que conta com 9.205 paróquias.
''Não quantificamos as romarias'', explica Taboada, para justificar a falta de números referentes ao segmento. Mas ele não descarta a idéia de passar a tratar o turismo religioso com mais cuidado. ''Até porque, 30% dos turistas que vêm à Bahia têm algum interesse desse tipo'', diz. ''O maior fluxo é de europeus da Península Ibérica, que buscam também resgatar nosso legado artístico e cultural.'' Há frequências diárias entre Salvador e Lisboa e quatro vôos semanais entre a capital baiana e Madri.
Reconhecidamente importante, ao menos na esfera informal, o turismo religioso esbarra no amadorismo. Não há nem mesmo estratégias pontuais a respeito. Um panorama que, pelo menos no discurso, tende a mudar.

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