"Semana Santa", inédito de Andrzej Wajda, é exibido em São Paulo
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quinta-feira, 05 de agosto de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 06 (AE) - Único dos cinco filmes que integram a retrospectiva Andrzej Wajda inédito no Brasil, "Semana Santa" terá sessões amanhã e domingo na Hebraica e no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, integrando a programação do Festival de Cinema Judaico de São Paulo. É um filme sobre o levante no gueto de Varsóvia que o cineasta trata de forma a discutir a responsabilidade dos católicos poloneses no massacre de judeus durante a 2ª Guerra.
Não é fácil falar com Wajda. Após uma série de telefonemas para Varsóvia e a Cracóvia, intermediada pela mulher do grande cineasta, Krystina, ele concorda em responder a algumas perguntas por escrito. Manda um bilhete simpático, desculpando-se por não estar disponível. Explica que está rodando novo filme.
Ele conta que a realização de "Semana Santa" paga uma dívida que tinha consigo mesmo. O livro de Jerzy Andrzejeweski recria o levante de judeus poloneses no gueto de Varsóvia, em 1943. Foi escrito no calor da hora, com base na indignação que o massacre nazista provocou no escritor. Depois da guerra, com base em novas informações que coletou, Andrzejewski escreveu outra versão do livro. Wajda conta tudo isso e acrescenta: em 1968, quase fez a adaptação, mas aquele foi um ano muito difícil para a Polônia.
Houve a invasão da Checoslováquia pelos soviéticos, havia muito medo no ar, muita repressão também. Wajda teve medo de que o filme pudesse ser mal-interpretado, forçando uma identificação dos nazistas com os fascistas de vermelho que sepultaram o sonho da primavera de Praga. Esperou quase 30 anos para concretizar o projeto. "Semana Santa" tem força. É um filme sobre o levante dos judeus no gueto sem mostrar uma imagem daqueles acontecimentos sangrentos.
Passa-se quase todo entre quatro paredes, no apartamento em que uma judia é escondida pelo antigo namorado. A concierge desconfia de que seja mesmo uma judia. Acha que o fato de ser escondida poderá produzir represálias dos alemães. Numa cena marcante, a heroína ainda está no centro da cidade, anda de bonde e o veículo passa pelo gueto na hora em que há um tiroteio. Mais tarde, tentando esconder-se no edifício, ela sobe para a cobertura e vê ao longe as imagens do gueto pegando fogo. São as imagens mais diretas que Wajda mostra da tragédia. Na maior parte do tempo, a violência é latente.
No fax, o cineasta nega que tenha querido fazer o filme simplesmente para condenar os católicos poloneses por sua omissão. Ele quis mais entender o que aconteceu e propor um debate sobre o assunto, até como forma de evitar que se repita. Define sua estética como política, acrescentando que o homem, para ele, é um ser político. Não há outro tema quando se vive sob a censura, como ocorreu durante tanto tempo na Polônia. Diz que, mais do que a virtude, o que lhe interessa é a ética. Suas direções para cinema e teatro nunca tiveram outro objetivo senão estimular as pessoas a pensar. É próprio da arte, ele define, ajudar as pessoas a viver com a posse de uma consciência.
Uma rosa é uma rosa é uma rosa, dizia Gertrude Stein. Mas uma rosa despetalada por formigas pode adquirir uma dimensão simbólica e virar uma representação da bomba atômica, como ocorre no filme de Akira Kurosawa, "Rapsódia de Agosto". O cinema de Wajda sempre teve uma dimensão simbólica muito forte. É um autor que sabe usar imagens para expressar conceitos.
As memórias da 2ª Guerra invadem com frequência o seu cinema. Em "Sansão", que também tratava do drama dos judeus poloneses sob o nazismo, a cerca de confinamento dos israelitas de repente vira uma cruz, representando o papel desempenhado pelos católicos na Polônia, na época. Em "Cinzas e Diamantes", talvez a obra-prima de Wajda (que também terá sessões amanhã e domingo), um crucifixo invertido, pendurado numa igreja em ruínas com a cabeça do Cristo para baixo, representa a inversão de valores naquele momento, o imediato pós-guerra, em que o país ainda debatia se ia adotar ou não o comunismo. E não se pode esquecer que, no mesmo filme, uma estátua de Stalin é focalizada de castigo contra uma parede, antecipando "O Homem de Mármore"
que ele fez justamente criticando os mitos do stalinismo.
Wajda foi dos primeiros, se não rigorosamente o primeiro
no mundo comunista, a cutucar o urso. Numa cena do seu episódio para "O Amor aos Vinte Anos", o herói interpretado por Zbigniew Cybulski (o ator de "Cinzas e Diamantes") salva uma criança que caiu na jaula do urso, num zoológico. Considerando-se o urso como representação simbólica da antiga União Soviética, Wajda estava expressando aí, por meio de outra idéia visual forte, o que representava para um artista a idéia da Polônia que ele gostaria de libertar da órbita de influência comunista.
Com "O Homem de Ferro", vencedor da Palma de Ouro em Cannes, ele virou o cineasta oficioso do sindicato Solidariedade. Candidatou-se a deputado na Polônia. E começou a fazer mais teatro do que cinema. Há tempos não se ouvia falar dele. A retrospectiva do Festival de Cinema Judaico, por pequena que seja, é um convite a revisar a obra de um cineasta de importância indiscutível.
Ele começou a brilhar na segunda metade dos anos 50, quando o cinema polonês abriu profunda brecha na mediocridade da cinematografia stalinista. Wajda, mais que seus contemporâneos Andrzej Munk e Jerzy Kawalerowicz, beneficiou-se do governo reformista de Gomulka, após a insurreição húngara, para desenvolver uma obra que produziu verdadeiro arrebatamento nos críticos.
"Semana Santa", a par de sua dimensão política, veicula uma discussão interessante sobre a mesquinharia dos relacionamentos humanos. Em "A Terra Prometida", talvez seu filme mais triste, focaliza a passagem da Polônia da estrutura feudal para a industrialização, por meio da história de três homens que constróem uma fábrica têxtil, um judeu, um polonês e um alemão. Nas entrelinhas discute as questões da nacionalidade e do judaísmo. É um filme que faz sentido numa programação como esta. Termina com uma pedra lançada contra a casa do capitalista. A pedra, outra imagem densa do cinema de Wajda.


