Semana de Arte no Galpão
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de outubro de 2000
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha2 
A mostra Possíveis Imagens: Fotografias Contemporâneas, da VI Semana de Arte, promovida pela Divisão de Artes Plásticas (Casa de Cultura da UEL), estará recebendo visitas até o dia 5 de novembro, todos os dias, das 10 às 22 horas.
Quem se deslocar até o local onde está instalada a exposição (av. Celso Garcia Cid, 1342, em Londrina), terá a grata surpresa de encontrar um espaço transformado, adaptado e ocupado de maneira original. Trata-se de uma exposição de arte que tem na questão do corpo seu eixo temático. A idéia é mostrar diversas leituras que colocam o corpo como local privilegiado de sensações, desejos e afetos que marcam nossa memória, seja através de sua presença ou ausência física. Daí a necessidade do registro. Daí o recurso da linguagem fotográfica como meio de expressão.
Já na entrada, uma sala cheia de fotos de mulheres gordas recortadas e montadas sobre isopor e suspensas por fio de nylon, ficam balançando ao sabor do vento, contrariando a idéia de peso, volume e densidade da lógica de ocupação de lugar no espaço por uma pessoa gorda. São as Classificações da Obesidade, da artista londrinense Fernanda Magalhães.
Logo adiante é a sala da artista mineira Rosângela Rennó. Suas obras tem participado de diversas exposições importantes do circuito internacional de arte e se caracterizam pela apropriação de imagens existentes, em que ela, como uma arqueóloga, faz escavações em busca de uma memória que altere e ou reforce seu significado original. As antigas fotos ampliadas de peitos de presos, feitas pelo Departamento de Criminalística da Polícia para registrar marcas peculiares dos detentos, transformam casos dramáticos em expressão de sensualidade e erotismo, mas também recontam uma história da própria história daqueles homens marcados com desenhos de mulheres, santos, cruzes.
Além dessa série, há uma outra, feita a partir de textos jornalísticos, em que as letras são entalhadas na superfície branca do quadro, narrando histórias onde a falta de imagem corresponde à presença de uma foto dentro da narrativa. Ou seja, uma ausência que traz uma lembrança, ainda que só a recordação, ainda que esteja só na memória do corpo.
Em outras salas, do total de cinco, o destaque fica para as duas fotos de Marie Iwakiri, intituladas de Cravo sobre a pele e Tributo à memória, em que a mistura de processos e materiais torna seu trabalho uma espécie de sudário de uma iconografia religiosa.
O avesso é o trabalho de Hugo Denizart, com seu back-light, Engenharia erótica. Uma luz de alta carga sensual sobre um corpo de contorno feminino, revela no entanto, visto com maior atenção, a foto de um travesti nu mostrando seu pênis. A propaganda de um hamburguer do Mac Donalds, comparou a moça da monitoria.
Em meio a tantos pinguins de geladeira e anões enfeitando jardins, se expondo como arte na cidade, esta mostra é uma boa medida de exposição bem realizada em espaços alternativos.
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