Sem tempo para envelhecer
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Márcio Maio<br>TV Press 
De alguma maneira, as novelas refletem aspectos da sociedade. Como o aumento da expectativa de vida, que saltou no Brasil de 67 anos, em 1991, para 72,5, em 2007. Sob essa ótica, não é estranho o crescimento de personagens interpretados por atores que, em outras profissões, já estariam aposentados. E seus intérpretes não só aproveitam essas oportunidades, como também deixam claro que não têm qualquer vontade de parar. Não vejo necessidade de ficar em casa. O trabalho não está pesando e ainda estou dentro das minhas faculdades mentais, atesta Ary Fontoura, 76 anos, o ricaço Jacques de Caras e Bocas.
Mauro Mendonça completa 78 este mês e pode ser visto em Paraíso como o sensível Antero. Às vezes, você repete muitas cenas, fica em pé, grava 20 tomadas e quase não tem tempo para sentar e tomar um café. Mas eu adoro, garante.
Contar com atores experientes é um desejo da maioria dos autores. A maioria dessas pessoas começou a carreira nos anos em que a televisão estava sendo implantada no Brasil. Os veteranos sabem usar a postura e o olhar. Muitos vieram do rádio ou do teatro. Têm bagagem, ao contrário de grande parte do elenco jovem de hoje, que não sabe sequer usar a voz, critica Ricardo Linhares, autor de vários folhetins de sucesso.
Independentemente de enxergarem ou não abertura para trabalho, não é fácil para alguns atores se manterem no ar. Elias Gleizer, 75, que vive o doce Cadore em Caminho das Índias, gosta de dizer que não tem do que reclamar. Mas reconhece que não existe tanto espaço assim para privilégios na terceira idade. Principalmente por insegurança. Não dá para recusar papel porque está cansado. Você vai sempre até o último limite. Se começar a pedir muito, vai se tornar chato e, naturalmente, ninguém volta a chamar.


