Quando o assunto é "Além do Tempo", tudo é surpresa para Julia Lemmertz. Por conta da vontade de trabalhar sob a direção de Rogério Gomes, a atriz confessa que não sabia muito bem como seria a dinâmica da atual novela das seis, na qual interpreta a ambiciosa Dorotéia. "Ele me convidou e eu aceitei. Mas só depois fiquei sabendo como seria o papel e que a trama teria duas fases. Foi um processo diferente de trabalho, surpreendente mesmo. E eu fui me empolgando cada vez mais por essa mistura entre passado e presente que a novela apresenta", analisa.
Encantada com os vestidos suntuosos e o tom mais teatral da primeira fase, Julia segue muito satisfeita pelos capítulos atuais da produção. Passados 150 anos, a mãe de Melissa, papel de Paolla Oliveira, retorna com a mesma ambição, mas algumas pitadas a mais de maldade e de sedução. "Ela volta mais mulher, mais exagerada e com uma comicidade irônica. A Elizabeth (Jhin, autora) desenhou a personagem de um jeito muito coerente. A Dorotéia atual carrega os erros de seu passado", resume.
Filha dos atores Lineu Dias e Lilian Lemmertz, aos 52 anos, Julia consegue ter uma visão crítica e sem tantas doses de saudosismo sobre a carreira. "Eu sempre fiz o que quis. Acho que isso acabou fazendo com que eu criasse uma relação muito sincera com o teatro, o cinema e a televisão", conta.
A estreia no vídeo foi em 1981, como uma das protagonistas de "Os Adolescentes", da Band. Em seguida, acumulou papéis de destaque na Globo, em produções como "Eu Prometo" e "Tenda dos Milagres". Em meados dos anos 1980, acabou seduzida pelo projeto de teledramaturgia da extinta Manchete, onde fez novelas como "Carmem" e "Guerra Sem Fim", até voltar, em definitivo, para a Globo, onde mantém uma frutífera e diversificada carreira em novelas como "O Beijo do Vampiro", "Celebridade", "Fina Estampa" e "Em Família". "Televisão pode ser muita coisa ao mesmo tempo. É possível variar entre produções mais comerciais e artísticas e todo mundo sai ganhando. Quando digo que vou me afastar por um tempo, aparece um convite irresistível", destaca, entre risos.

Entre as personagens de "Além do Tempo", a Dorotéia foi uma das que apresentou menos alterações de perfil entre uma fase e outra. Você esperava uma ruptura mais intensa?
A gente não sabia muito o que esperar. Os textos novos foram chegando bem próximo do final da primeira fase. No trabalho em si não houve essa quebra no cotidiano. A transição foi feita de forma muito bem arquitetada, mas rápida, para não cair o ritmo. Um belo dia, a gente tirou o vestido de época, cortamos o cabelo e pronto. A Dorotéia mudou pouco mesmo. Ela guarda a ambição e o caráter dúbio que sempre a acompanhou. Eu acho isso muito coerente com a proposta da novela.

Por quê?
Pelo fato de que cada personagem ainda carrega sua vida passada. As relações e novas atitudes demonstram uma evolução ou até mesmo uma involução do que aconteceu na primeira parte da história. Entre as conversas que tive com a equipe e o elenco, a gente bateu muito na questão de que os papéis são o que são hoje a partir do que eram ontem. Isso é muito interessante, dá unidade ao projeto.

Neste contexto contemporâneo, Dorotéia acabou ganhando mais destaque em "Além do Tempo". Como você recebeu esse aumento da participação da personagem?
É um reflexo mesmo do que aconteceu na primeira parte da novela. Em um contexto mais atual, minha personagem tem a possibilidade de não ser apenas a "mãe" da Melissa (Paolla Oliveira). Ela encara os dilemas das mulheres de hoje, que têm mais energia para buscar a própria realização. Acho que a Dorotéia chegou na segunda fase da trama mais impositiva, meio vilã tal qual a filha. Antes, ela vivia em torno da Melissa e de como as duas poderiam faturar com um bom casamento. Agora ambas estão em novas configurações e histórias mais independentes.

O que mais a atrai na antiga e na atual Dorotéia?
A primeira parte da novela foi de uma felicidade imensa. Há muito tempo que eu queria voltar a fazer algo de época. E "Além do Tempo" foi aquele tipo de novela bem clássica de época, de amores escusos e impossíveis, de uma atuação mais teatral, que é um prato cheio para os atores. Agora, a personagem reside em um espaço que eu conheço um pouco mais, mas nem por isso deixa de ser interessante. Muito pelo contrário. A Dorotéia perdeu aquelas roupas lindíssimas, mas o papel ganhou estofo.

Como assim?
A ambição dela mudou. Dorotéia ainda quer estar no lugar que ela acha que merece. Mas ela ganhou um jeito mais sedutor e próprio de galgar esses objetivos. Ela hoje tem mais dilemas, não consegue ser apenas uma só. Isso a deixou um pouco mais pesada, o humor dela ficou mais irônico e sarcástico.

Personagens modernas e independentes são bem comuns na sua trajetória. Como você faz para não se repetir em cena?
Cada autor me dá os ingredientes necessários para ir a fundo nas diferenças. Em "Araguaia" (2010), era uma mulher que se libertava e redescobria o amor nos braços de um homem mais jovem. Em "Fina Estampa" (2011), a mulher que sofria por não poder ser mãe e levava o casamento para o fundo do poço por conta de sua vontade. Mais recentemente, a Helena de "Em Família", vivia em contradições e sempre olhando para o passado. Me apego na história de cada uma e tento contar da melhor maneira possível.

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