Sem ranking, os melhores filmes de 2018
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de janeiro de 2019
Carlos Eduardo Lourenço Jorge <br> Especial para Folha 2 
Serão aceitos todos os senões em forma de discordâncias, divergências, estupefações e que tais. Afinal, esta tela em branco está sendo preenchida para impressão e publicação (sim, acreditem, o periódico impresso ainda existe e resiste bravamente) por humanos pensantes, que não atendem por nomes como Hardware de Souza ou Software da Silva, e por isso a subjetividade é e será sempre nossa última fortaleza e reduto das objetividades intelectuais e estéticas. Atirem, pois, a primeira pedra. Ou se calem até o fim de 2019.
Sem ordem cronológica de lançamento, ou sem agrupamento por gênero. Há os bem sucedidos de bilheteria e os nem tanto. Na maioria, falam inglês. Com asiáticos de permeio.


De cara, vamos ao terror. Desde o ano passado, quando "Corra !" entrou na corrida do Oscar por méritos próprios, o gênero tem nos dado mais alegrias que sustos. Ainda bem. "Hereditário" não busca a adesão fácil do público, mas arma uma doentia trama de laços putrefatos entre mães e filhas, armada por um roteiro milimétrico e uma densidade estética castradora. Com montagem e trilha sonora bem casadas, e uma Toni Collette possuída por seu talento para transmitir todo um lodo emocional. Num mesmo plano arrepiante, o horror sideral de "Um Lugar Silencioso" (John Krasinski) já nasceu como cult movie, no qual uma família é aterrorizada por uns alienígenas cegos mas de audição afinadíssima. Portanto, o silêncio aqui não é só de ouro, mas vale a própria vida. Praticamente mudo, o filme é uma angustiante sucessão de cenas construídas inteligentemente porque conta com a ajuda do som assustador da própria respiração da plateia.
Os primórdios da aventura espacial chegam magníficos em "O Primeiro Homem", uma mescla de histórico heroísmo com trauma pessoal de superação: o astronauta pioneiro Neil Armstrong vivido por Ryan Gosling, hoje uma espécie de último rei de Hollywood. O ator quase nada faz em sua tarefa de parecer profundo; e esta solenidade fake do personagem encontra a fada madrinha Claire "The Queen" Foy , que em quatro cenas curtas dá uma lição do que significa transmitir emoções. A Lua deveria ser o seu prêmio.
A japonesa Naomi Kawase, primeira dama do cinema japonês, brilha novamente atrás das câmeras em "Esplendor", o belíssimo filme que devolveu ao Com-Tour a magia da exibição dos melhores filmes do mundo. Ao contar uma história de vídeo-transcrição - a criação de legendas e narração para deficientes visuais - o roteiro fala de interpretação, compreensão e aceitação. Mas também sobre luz e escuridão, sobre como pode (ou não) ser possível ver com o coração o que não é possível ver com os olhos.
O sul-coreano "Em Chamas" (Lee Chang-dong) retira de apenas 13 páginas do conto de Haruki Murkami a história de uma jovem que deixa seu gato com um ex-companheiro de colégio enquanto viaja para a Africa e volta com outro jovem, desconhecido e bem de vida. Um filme de planos raros e elipses preciosas em busca de significado existencial, sutileza e profundidade. Um triângulo amoroso que é muito mais que isso; um mix em busca de raízes da sociopatia, da alienação amorosa e do sentimento de injustiça.
Como filme espetáculo de super-heróis é um dos bons. Mas o poderio de "Black Panther" vai mais além. Deve ser visto (ou pelo menos deveria) como celebração sem complexos e sem barreiras excludentes da cultura afro. Da mesma forma que "Wonder Woman" fez em termos feministas, esta obra atrevida e esteticamente bem arma dirigida por Ryan Coogler colocou pela primeira um super-herói africano nas telas do mundo. O importante é que não se trata de um posicionamento politico correto; mas que a cultura negra permeia a forma e a substancia da história que narra.
"Missão Impossivel - Efeito Fallout" me pegou totalmente de surpresa, mas acredito, sem exageros e apesar da auto-suficiência de Tom Cruise, que o filme é um dos melhores da década, em termos de ação. É a mesma história de sempre (uns terroristas que querem destruir o mundo e blábláblá) , mas narrada de maneira tão adrenalínica, com cenas de movimento e dinâmica e exercício físico tão realistas e vibrantes que o resultado é puro cinema.
Vamos ser honestos: não é nenhuma obra-prima (longe disso), e nem teve a pretensão. E foi aí que se deu bem: "Com Amor, Simon" é comédia romântica muito agradável, uma clássica história de amores de iniciação com identidade criativa pelas mãos de um diretor interessante , Greg Berlanti; mas sua força reside mesmo é na maneira como o filme conduz o rito de normalização do chamado "cinema gay" na indústria: é o primeiro exemplar LGBTI de um grande estúdio (Fox). Que veio muito bem acompanhado de uma espécie de equivalência europeia, "Me Chame pelo Seu Nome", de Luca Guadagnino, aqui um filme mais cabeça (e também tronco e membros). Com sequela já em projeto avançado.
Claro, vou colocar numa mesma cesta básica os musicais do ano. "Bohemian Rhapsody" entra na lista porque, se você gosta do "Queen", os números musicais revivem com intensa emoção o espírito de Fred Mercury & banda. Apesar da estrelíssima e exagerada prótese dentária de Rami Malek. E "Nasce Uma Estrela" faz mais que figuração por causa de Lady Gaga. É isso.


