A simplicidade parece ser a principal característica do ator Jackson Antunes, mineiro que ainda menino teve suas primeiras aventuras no circo e que hoje divide seu tempo na terrinha com a correria das gravações de novelas no Rio de Janeiro. Ele está em Londrina participando do Filo 2000, com o espetáculo ‘‘Memória de Embornal’’, monólogo no qual vive um matador apaixonado. A montagem estreou ontem na cidade e tem sua última apresentação hoje, às 19 horas, no Teatro Zaqueu de Melo.
Aos 40 anos de idade, Jackson Antunes não abandona suas raízes, apesar do sucesso alcançado na televisão. Casado e pai de dois filhos, mesmo morando no Rio de Janeiro ele passa a maior parte do tempo no Vale do Jequitinhonha (norte de Minas), ‘‘com o pessoal nas folias de reis, tocando viola, capinando roça...’’
Este homem de fala mansa sempre interpretou personagens populares na televisão, como o líder do Movimento Sem-Terra, Regino, da novela ‘‘O Rei do Gado’’, e o capataz Damião, de ‘‘Renascer’’. Aliás, foi na pele deste último que viveu seu papel mais sedutor, mas deu graças quando abandonou a fama – ou a pecha – de galã.
Atualmente, Antunes é o capitão do mato Antenor na novela ‘‘Terra Nostra’’. Em entrevista, por telefone, à Folha2, Jackson Antunes contou um pouco mais sobre o início de sua carreira, a televisão e o teatro, além de seus projetos.
Como foi o início de sua carreira até chegar ao Rio de Janeiro e à televisão?
Comecei no circo, ainda moleque, ajudando na montagem. Acabei tomando gosto por aquilo e viajei pelo norte de Minas Gerais durante algum tempo. Depois fiz teatro amador em Montes Claros. Desemboquei em Belo Horizonte um tempo depois, aí no teatro profissional. Mas a história da televisão começou em Janaúba. Nessa época, há 20 anos, o Luiz Fernando Carvalho estavá lá fazendo ‘‘Grande Sertão, Veredas’’ com o senhor (Walter) Avancini, e eu declamando, molequinho ainda, Patativa do Assaré (cordelista cearense) no teatro. Ele me viu e ficou fascinado pela riqueza do maior poeta popular do mundo. Muitos anos depois ele me localizou através do Sindicato dos Artistas de Belo Horizonte e me convidou para a novela ‘‘Renascer’’.
Quantas novelas foram até agora?
Esta é a sexta.
Você também participou de outros especiais de tevê...
Participei dos bons momentos, graças a Deus. ‘‘A Farsa da Boa Preguiça’’, do mestre Ariano Suassuna; fiz um especial, como protagonista, chamado ‘‘O Poder da Arte da Palavra’’, do João Ubaldo Ribeiro, com direção da Tizuka Yamasaki; ‘‘O Memorial de Maria Moura’’, da dona Raquel de Queiroz, ‘‘Labirinto’’, do Gilberto Braga.
E no cinema?
Só um curta (metragem).
Tem vontade de fazer outros projetos?
Tenho. Me caíram alguns roteiros na mão, mas acho minha profissão muito preciosa, bonita, e não quero jogar fora personagens que não me tragam prazer. Ator feio não fica rico no Brasil, mas tem que pelo menos ser feliz com a sua profissão.
E como é que fica o galã do início da carreira na tevê? Você viveu um momento assim...
Mas foi uma coisa tão rápida, que realmente não funciona. Porque eu andei beijando a Patrícia Pillar, criou-se essa coisa de galã, de sexy symbol. Mas graças a Deus foi tão transitório, tão rápido, que meus 36 anos de carreira foram apenas temporariamente ameaçados por essa coisa de galã, que eu acho uma burrice, uma mediocridade muito grande, uma bobagem.
Você está há três anos em cartaz com o espetáculo ‘‘Memória de Embornal’’. Nesse tempo, fez mais alguma coisa em teatro?
Montei com minha esposa um texto de Paulo Coelho, escrito em 71, chamado ‘‘A Bigorna e o Martelo’’ – naquele tempo teve um período maravilhoso dele com o Raul Seixas. Depois fiz o espetáculo-solo ‘‘Seu Marido Sabe Que Você Tem Outro Homem?’’, a história de um caboclo que passava 24 horas no xadrez. E agora, ‘‘Memória de Embornal’’. Sempre montei meus espetáculos. Fui convidado por muito diretor importante. Mas como venho lá de Minas... a gente lá ficava isolado, não conhecia diretores. Aberdal Freire me convidou e eu nem conhecia. A gente não tinha informação de quem era. Ulysses Cruz me chamou pra fazer ‘‘A Dama do Mar’’. Não sabia quem era Ulysses Cruz. Na verdade, a gente só conhecia Nelson Rodrigues, Plínio Marcos... os autores.
Você deixou de trabalhar com grandes diretores. Hoje isso mudou?
Claro, inclusive eu conheci, cheguei a conversar com alguns. Eles alimentam um desejo muito sincero de vir a trabalhar comigo e eu com eles. A gente vai amadurecendo. A empolgação é que distancia a gente da arte, da pureza.
Quando é que você deixou Minas para trabalhar no Rio de Janeiro?
Vim para o Rio fazer uma participação em ‘‘Renascer’’ de apenas três capítulos que estão me custando já oito anos, sem parar de fazer televisão. Mas não perdi contato com a minha terra, as coisas que eu faço, espetáculos que monto. Eu também canto. Tenho um disco chamado ‘‘Jeitão de Caipira’’, com músicas do Tião do Carro, um mestre da viola; tenho outro, ‘‘Jackson Antunes canta Téo Azevedo’’, com o folclore da minha terra. Recentemente lancei um disco cantando coisas do mestre Gonzaga.
Quais personagens marcaram sua carreira?
O mais importante de todos eles, pra mim, foi Regino, o líder do MST na novela ‘‘O Rei do Gado’’. Acho que foi o momento mais festejado pelo MST, porque discutiu-se a reforma agrária no horário nobre. Acho que aí realmente o movimento pôde falar, se expressar...
Já que tocou no assunto, o que acha dos últimos acontecimentos envolvendo o MST?
É um problema sério. Eu não sei se estão fazendo como fazem com o Nordeste, só mostrando o lado seco, o lado triste... Não sei se a mídia ultimamente só está mostrando o lado podre do movimento. Só vejo invasões! Invadiu prédio, invadiu isso e outro, confronto com a polícia... Enfim, eu tenho cá comigo, dessa mídia, um certo medo.
Para compor o personagem Regino você passou por alguma experiência com os sem-terra?
Fiquei dois meses num assentamento.
Diante do que você viveu nesse tempo, te assustam hoje as cenas divulgadas pela mídia?
Me assustam mais ainda. Conheci pessoas de carne e osso, de alma, que estavam querendo só um pedaço de terra – claro que no meio delas há pessoas infiltradas para fazer baderna, como na vida também é assim. Mas o que pude perceber é que eram pessoas que só queriam um pedaço de terra para plantar. Como a gente vive num País com má distribuição de renda, acho que não pensei errado.

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