Sem pecados
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de agosto de 2009
Mauro Trindade<br> TV Press 
O talentoso diretor e roteirista Jorge Furtado - dos filmes O Homem que Copiava e Meu Tio Matou um Cara - conseguiu uma proeza. Criar um Decamerão com a libido do Sítio do Picapau Amarelo. Nem o rápido vislumbre da nudez de Deborah Secco ajudou a superar o ar pudico da minissérie da Globo, que carece de naturalidade e uma interação mais sensual entre os personagens.
Adaptações sempre são complicadas. Especialmente aquelas de grandes obras. Caso do Decamerão, texto de Boccaccio elogiado há cerca de sete séculos. Primeiro por uma inevitável comparação com o original, na qual as novas versões costumam sair perdendo. Depois pelas modificações da linguagem original para a tevê, o que requer grandes alterações.
A minissérie pode ter se ressentido disso; mas é admirável como histórias que envolvem adultério, ciúme e cobiça tenham se tornado tão frias. E olhe que há algumas francamente pornográficas. O horário de exibição também pode ter pesado.
Fica claro, porém, a decisão do diretor em montar um Decamerão sem o exagero de certas produções que sempre escorregam para o caricato, na qual os personagens - especialmente os nordestinos - se movimentam feito calangos embriagados. Parece que aqui a forma ordena o conteúdo.
A produção da minissérie conseguiu reencontrar na serra gaúcha o ambiente rural da Toscana, com suas casas de pedra, morros baixos e plantações. A interpretação dos atores é notável, em especial, Drica Moraes, em ótima performance. A fotografia, lindíssima, demonstra todo o poder de fogo da tevê digital. O tubo de imagem já é peça de museu.


