SEM 'PALAVRA'
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de julho de 2000
Nelson Sato De Londrina 
O número de agosto da revista Palavra vai marcar sua despedida das bancas. É o que anuncia seu fundador, o cartunista Ziraldo, inconformado com o descaso do empresariado brasileiro.
Palavra sai de circulação depois de 16 heróicas edições. Foi lançada em abril do ano passado com uma proposta editorial arrojada, que procurava destacar manifestações culturais de diversas regiões do país embalada por um projeto gráfico atraente.
A experiência chega ao fim por ter se tornado inviável econômicamente para seus criadores. Ficou difícil manter a revista sem anunciantes diz Ziraldo. Nenhum patrocinador compreendeu que seu anúncio na revista não era para obter retorno financeiro, mas para investir na cultura do país, investir na sobrevivência de uma revista séria de cultura.
Ele lembra que toda a cultura norte-americana é resultado do mecenato. Nos Estados Unidos foram os milionários que construíram os museus, as bibliotecas e as escolas. Aqui no Brasil, os empresários não têm essa compreensão. Palavra tinha uma tiragem de 35 mil exemplares. Era editada em Belo Horizonte com distribuição nacional.
Até a sexta edição, funcionou precariamente, quase como uma publicação independente. Depois, a ex-Secretária de Cultura do Estado de Minas Gerais Ângela Gutiérrez assumiu o controle acionário da revista dotando-a de estrutura empresarial. Nos últimos meses, as vendas em bancas estavam crescendo na mesma proporção com que aumentava a lista de pessoas querendo fazer assinaturas.
Quando tivemos a idéia de lançar a Palavra lembra Ziraldo pensamos em tratar de todas as manifestações culturais do país não dando prioridade para o que acontece no Rio e em São Paulo mas ao mesmo tempo não deixando de falar desses centros. Nos 16 números, ela cumpriu essa missão.
A edição de estréia, por exemplo, destacava o grupo de teatro Galpão, de Belo Horizonte. A edição seguinte trazia uma reportagem sobre os vários grupos de pífanos de Canudos, no sertão baiano. A terceira abordava o teatro de rua do Pará. No quarto número, era o grupo de teatro de bonecos Giramundo (MG) que ganhava as páginas principais da revista.
O humor ganhou um espaço nobre na publicação. A cada número, um cartunista era apresentado para os leitores. Rafael Wassermann, Fausto Bergocce, Nani, Lu Martins, Quinho, Cau Gomez, Samuca, Lailson e Nerino foram alguns dos artistas que mostraram seus traços na coluna. O projeto gráfico, um elemento notável da revista, também procurou se diferenciar do padrão vigente no mercado.
A proposta, ainda segundo Ziraldo, era fazer uma revista bonita, com cara brasileira, porque o que você vê hoje em dia nas bancas é tudo cópia de revistas californianas. Agora continua ele as pessoas vão ter que encadernar esses 16 números e ficar em casa admirando. Daqui há alguns anos, a Palavra vai virar tese universitária. E eu não quero que ela vire tese universitária nenhuma. O Brasil precisa mostrar sua cara. A Palavra mostra a cara do Brasil. Agora, o Brasil ficou mais pobre sem a Palavra.
O último número traz como destaque um debate sobre a arquitetura brasileira, incluindo uma entrevista com Oscar Niemeyer.


