Sem ousadia, mas consistente
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segunda-feira, 28 de junho de 2010
Maria Eugênia de Menezes<br> Agência Estado 
Para quem se acostumou a esperar apenas pelos ''grandes nomes'' pode até ter sido decepcionante essa 42 edição do Festival Internacional de Londrina (Filo). De fato, na grade do evento deste ano não constavam atrações que tivessem o apelo pop de um Peter Brook ou de um Eugenio Barba. Mas nada disso parece ter comprometido a consistência de sua programação.
Se faltaram os grandes astros da cena estrangeira, não foram poucos os espetáculos de qualidade. Caso do irretocável ''A Tempestade'', dos portugueses da cia. do Chapitô, e da montagem italiana ''Guerra'', que se revelou, talvez, como o grande trunfo dessa edição.
O incômodo trabalho de Pippo Delbono mesclou conflitos bélicos a guerras internas, descortinando-os pela perspectiva bastante particular do diretor, e foi ovacionado pela plateia que lotou o teatro Ouro Verde nos dois dias de apresentações.
Viu-se de tudo um pouco no Filo deste ano, que teve 22 mil espectadores e retomou atividades, como o palco de peças infantis. Pautado pelo critério da ''diversidade de estéticas e propostas'', que o curador Luiz Bertipaglia faz questão de ressaltar, o evento investiu em diferentes vertentes: teatro de bonecos, de objetos, baseado no trabalho físico dos atores ou calcado no texto. O recorte que a reportagem acompanhou na última semana do festival comprova essa opção.
Da Alemanha, a cia. Marc Schnittger trouxe a inventiva e delicada ''Life.Stories''. Ao movimentar títeres de luvas, dois atores desdobram-se no palco para compor quase uma dezena de personagens e criar uma teia de situações cotidianas, em que 30 historietas se entrelaçam.
Com um quê de cinematográfico, a montagem faz lembrar a fragmentação de Robert Altman em ''Short Cuts''. E o espectador, tal como se fosse guiado por uma câmera, é levado a conhecer episódios prosaicos da vida de um motorista de táxi, de uma atriz pornô e de um mendigo.
Em direção oposta, seguem os chilenos do Teatro en el Blanco, que trouxeram ao festival duas montagens - ''Diciembre'' e ''Neva'' - em que a dramaturgia baseia-se essencialmente no texto.
Da América Latina, aliás, veio parte consistente dessa edição do Festival de Londrina. Além do ''Teatro en el Blanco'', o Chile também foi representado por ''El Último Heredero'', espetáculo da cia. Teatro Viaje Inmóvil, e por ''La Vida Privada'', drama de Marco Antonio de La Parra. Com texto de Bernard-Marie Koltès, o ator argentino Mike Amigorena trouxe uma versão para o monólogo ''La Noche Antes de los Bosques''.
Sem estreias, a seleção nacional não surpreendeu e privilegiou espetáculos do Sudeste, em especial do eixo Rio-São Paulo. Optou por bons trabalhos, como o premiado ''Memória da Cana'', do grupo paulistano Os Fofos Encenam; o monólogo ''Doido'', de Elias Andreatto; e o lírico ''Aqueles Dois'', da cia. mineira Luna Lunera, mas careceu de certa dose de ousadia.


