Sem medo de ser piegas
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segunda-feira, 31 de agosto de 1998
Celso Mattos 
Quando o diretor Gus Van Sant aceitou dirigir Gênio Indomável, a surpresa foi geral no circuito cinematográfico. Afinal, desde sua estréia no cinema, o cineasta sempre esnobou as produções acadêmicas dos grandes estúdios, preferindo trilhar caminhos menos convencionais ao escolher filmes outsiders como Drugstore Cowboy e Garotos de Programa. Estaria Gus Van Sant querendo flertar com o sucesso? A questão não é bem essa. O diretor gostou da história e ficou tocado pela determinação dos jovens roteiristas Matt Damon e Ben Affleck.
A surpresa se tornou ainda maior quando o filme foi indicado a nove Oscars, ganhando dois: melhor ator coadjuvante e roteiro original. Pode-se dizer que o sucesso de Gênio Indomável se aplica ao carisma dos personagens centrais Will Hunting (Matt Damon) e Sean McGuire (Robin Williams) e à competente direção de Gus Van Sant que prova, mais uma vez, ser um excelente diretor de atores. Apesar de ter um roteiro ingênuo, quase acadêmico, Gênio Indomável é sensível e honesto ao propor uma investigação profunda sobre um jovem que está se protegendo a todo custo dos dramas da vida.
Em linhas gerais, Gênio Indomável apresenta uma trama com fortes tintas hollywoodianas ao contar a história de Will Hunting, um jovem com um talento comparado ao de Einstein e Leonardo Da Vinci, mas incapaz de compreender seu próprio coração. Preso aos traumas do passado, Will é um rebelde que, os invés de brilhar nos bancos escolares, prefere ficar bebendo com os amigos e brigando nas ruas. A genialidade de Will desperta o interesse do professor Lambeau (Stellan Skarsgard), que resolve contratar um terapeuta para domar a fera.
É então que entra em cena Robin Williams, vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante, no papel do psicólogo Sean McGuire. Entre diálogos cortantes e clichês melodramáticos, Gênio Indomável se constrói sobre temas como dificuldade de relacionamento, ritos de passagem e complexo de culpa. Talvez esse seja um dos motivos que levaram Gus Van Sant a assumir o projeto, pois esses temas sempre estiveram presentes em seus filmes anteriores. Além disso, aproximam Gênio Indomável de Gente como a Gente, de Robert Redford, filme preferido de Sant.
Como o próprio diretor afirmou, o roteiro da dupla Damon e Affleck era perfeito, precisando apenas de alguns ajustes. É de autoria de Gus Van Sant um dos diálogos mais densos e contudentes do filme que mostra o confronto entre Robin Williams e Matt Damon num parque de Boston. Como poucas pessoas esperam até o final dos créditos, é bom lembrar que Gênio Indomável é dedicado à memória de Allen Ginsberg e William Burroughs, dois símbolos da contracultura americana dos anos 60. Lançamento da Paris Filmes. Duração: 126 minutos.


