Sem medo de aprender
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de outubro de 1997
Beatriz Ferroni Ferreira 
Arquivo FolhaO autoconhecimento é uma cadeira de provas diárias, um eterno renovar, reaprender Ganhamos de graça, ao nascer, um cérebro e uma alma. O que temos feito com eles?Que felicidade ver um filho formado numa universidade! Para entrar foi uma tourada. Para sair, uma maior ainda! Olhando aquele pimpolho, que ensaia a vida, concluímos que sua educação apenas começou. Ostenta com merecido orgulho o diploma, que deverá ser a base onde apoiarão seus conhecimentos e desenvolvimento. Sei que sua formação não termina aí. Tenho que ajudá-lo a não só aumentar seus conhecimentos técnicos como incentivá-lo à investigação de sua própria essência. E fazê-lo assumir um compromisso consigo mesmo: o de se conhecer. Só através do conhecimento se chega à verdade e ao bem. O processo de crescimento e expansão não é o caminho dos fracos e inseguros. Exige coragem para se embrenhar pelos labirintos da alma e do espírito. Uma busca frenética que avança, um andar contínuo, exaustivo e interminável. Um caminho solitário onde o momento da descoberta é único e pessoal, explodindo como uma transformação de lagarta em borboleta. De nada adianta querer apressar sua evolução.
Nosso exemplo, nossas eternas ladainhas e, obviamente, os clássicos vão funcionar como delineadores de sua conduta. A brilhante educação liberal adquirida servirá para treinar seu julgamento, desenvolver seu intelecto dando-lhe condições de conseguir seu sustento, sua realização profissional.
Porém, sei que chegará o momento em que ele se questionará e chegará à conclusão de que sabe muito sobre os outros e se considera instruído, mas ainda é um desconhecido para si mesmo. Há uma dura verdade nas palavras de Sócrates, quando ele conclui: Conhece-te a ti mesmo. Tarefa difícil, muito difícil, e completamente imprescindível.
Lidar com emoções, manusear sensibilidades, compartilhar a vida com outros ou entender nossa alma não se conhece em livros ou nas mais respeitadas universidades. É óbvio que a educação formal é um fato interminável e necessário. Mas não é esta a mais ampla educação. O grande professor vem disfarçado com a vida, com o observar, com o bom senso e através de antenas ligadas para vontade em acertar. Vem de um mestre locado em nosso interior que cobra alto para nos formar nesta escola. Que de outro modo aprender, senão vivendo, provocando situações onde somos testados, explodindo de alegria com pouca coisa, morrendo aos poucos com a tristeza e a incapacidade ou quando concluirmos que somos gente e gente imperfeita? Qual brilhante professor nos ensinará estes valores, senão nós mesmos?
Não sejamos prepotentes ao imaginarmos poder passar estes conceitos aos nossos filhos. Podemos apenas ajudar-lhes contando descobertas que são as nossas. Mas continuarão sendo as nossas. Cada um tem em seu universo, as suas. Minha alma é diferente da sua. Meu eco é diferente do seu. Podemos viver no mesmo compasso, mas continuamos distintos. Estamos na mesma família, cultivamos a amizade entre nossos amigos para aprendermos juntos, para nos enriquecermos mutuamente, mas cada um optou pelas suas próprias matérias. E aí não se tem gerência sobre as alheias.
O autoconhecimento é uma cadeira com provas diárias, um eterno renovar e reaprender que embala nossos dias e nos conduz a brilhantes constatações que fazem guinar nosso leme em busca da perfeição e da felicidade.
Se não somos capazes de concluir por nós mesmos, o mercado está cheio de opções. Podemos buscar estímulo em quem tem teoria para nos ajudar, os que nos alertam para reações muitas vezes negligenciadas de nosso repertório, eu mesmo observando os que não são desta turma, mas mostram a sabedoria vivenciada nos anos de prática que deixaram o corpo marcado de ensinamentos.
A conclusão a que chegamos é que somos eternos aprendizes. Aprendemos com os grandes e com os pequenos, com os letrados e com os incultos, com os simples e com os prolixos, com os filhos e com os pais. Basta estarmos abertos e sem medo de mostrar nosso despreparo em fazer vibrar o nosso íntimo, em viver sem a poeira de velhos e inócuos chavões.
O objetivo é ter a força do conhecimento, esta forma que liberta, que dá o domínio de julgamento, de consciência, aquela que nos diferencia dos irracionais, dos que se resignam a passar por esta vida numa morna e cômoda letargia.
Ganhamos de graça, ao nascer, um cérebro e uma alma. O que temos feito com eles? O cérebro, exercitamos todos os dias, como os músculos do corpo. Nunca teremos aprendido, tudo o que desejaríamos, pois a vida é curta demais em certos aspectos. A cada nova descoberta sentimos que a segurança do conhecimento proporciona a constatação da beleza na diversidade e a liberdade de opção no delineamento do futuro. E a alma? Continua empoeirada, vivendo ao deus-dará? Não podemos deixá-la sem cuidados. Faz parte de nós. Há de ser alimentada com o exemplo de sabedoria e de humildade dos grandes. Viver é fazê-la vibrar ao som de uma música, emocionar ao ver as obras de grandes mestres, crescer com a inocência de uma criança, aprender com a simplicidade da natureza e tremer com a cumplicidade de emoções. Mesclar intensidade com durabilidade. Fazer com que o amor a si mesmo e aos nossos semelhantes seja a vela estufada de nossos frágeis barcos. Temos que ter a coragem de nos reconhecer inacabados.
Tenho que mostrar isto a meu filho. Tenho que lhe dizer que de nada adiantam meus diplomas se não passar nesta vivencial escola com louvor. Como fazê-lo entender que a educação não acaba na formatura, nem tem limites palpáveis de tempo e de volume? Há uma ligação direta entre o cérebro e o coração e se esta via de duas mãos for interrompida nos transformaremos inexoravelmente em lagartixas rastejantes de uma espécie destinada ao sucesso.
Beatriz Ferroni Ferreira é executiva da L& - Clube de Arte, Desenvolvimento e Cultura


