SEM LAMENTAÇÕES, CURITIBA FICA SEM O GUGGENHEIM
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sexta-feira, 23 de novembro de 2001
Zeca Corrêa Leite<Br>De Curitiba 
Foi batido o martelo e o Museu Guggenheim ficou mesmo com a cidade do Rio de Janeiro. Curitiba, entre outras capitais, disputou a honraria de ostentar o museu em seus domínios utilizando para isso o complexo do Edifício Castelo Branco, projetado por Oscar Niemeyer. Houve prós e contras à aspiração do governo, mas depois do calor da discussão, aos poucos o assunto foi se restringindo apenas às autoridades envolvidas com a questão.
Com a decisão final sobre o destino do Guggenheim, algumas personalidades ligadas ao setor cultural de Curitiba mais especificamente das artes plásticas opinaram a respeito.
Para o diretor do Museu de Arte Contemporânea, João Henrique, a vitória do Rio de Janeiro não chegou a dar uma conotação de perda para Curitiba. ''Temos condições de criar no nosso próprio museu, e isso digo num sentido nacional, com nossa própria linguagem. Enfim, temos que cuidar daquilo que é nosso''.
João Henrique dá as boas-vindas ao empreendimento internacional, e faz votos de que ele contribua às artes locais e à cultura brasileira. Mas não deixa de fazer algumas perguntas do tipo ''que mostras trarão? que retorno haveria para as artes plásticas brasileiras num sentido de abertura internacional?''. Respostas a isso, ele brinca, ''só o tempo dirá''.
Tucca Nissel, proprietária da Galeria Ybacatu, também cerca-se de algumas dúvidas. ''Aparentemente pode ser bom ao Rio de Janeiro, que tem um fluxo muito grande de turistas, mas não ficou esclarecido como ele atuará no Brasil''.
A empresária conhece moradores de Bilbao que questionam seriamente a presença do Guggenheim em sua cidade. Enfim, a municipalidade gastou rios de dinheiro para construir a sede monumental, e em contrapartida viu crescer o turismo. Apesar disso, fica a dúvida: será que os gastos dos visitantes na cidade reverteram os gastos do projeto? ''Se viesse a Curitiba seria necessário um investimento muito grande'', observa.
Já o marchand Luiz Fernando Sade assegura que Curitiba não tem público para o museu. Se ele viesse para cá, seria um investimento um tanto isolado para a cidade, em termos culturais. ''Nosso público é pequeno para essa área e o museu é um grande negócio. O curitibano gosta de shopping-center, e não acredito que teríamos um turismo suficiente para manter esse museu''.
O custo-benefício seria extremamente alto para o município, entende Sade, proprietário da Acaiaca. Ele frisa que o Guggenheim ''exige muito e não dá nada. Tudo ali é pago''.
Sobre a observação do comportamento curitibano ele garante que não está fazendo comentário pejorativo. ''Somos diferentes, somente isso''. Como prova daquilo que está falando cita o Canal da Música, um prédio belíssimo, programação artística impecável, ingressos a preços acessíveis mas que ainda é desconhecido pela maioria dos curitibanos. ''Poucos sabem que o Canal da Música existe'', lamenta.
Marco Melo, da Casa da Imagem, acredita que se o Guggenheim viesse para a cidade o maior benefício que ele traria, de imediato, seria a mudança no padrão de profissionalismo no universo cultural, ''especificamente nas artes plásticas''. Porém, o fato de não vir ao Paraná ''não impede que tratemos nossas instituições museológicas com uma relação mais profissional''.
Qunato a vinda do Guggenheim para o Brasil ainda há controvérsias. Na segunda-feira, ao mesmo tempo em que a prefeitura do Rio de Janeiro anunciava a instalação do museu na cidade, divulgando que o procurador Júlio Horta estaria em Manhattan assinando o contrato para o estudo da viabilidade da construção, o Guggenheim negava a informação. O ''New York Times'' publicou uma reportagem que afirma que ''a ambição do museu está sendo reduzida'' por conta da atual situação econômica mundial e pelos resultados desapontadores de projetos como as filiais de Las Vegas.


