Na sala de sua confortável residência no Jardim Botânico, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro, enquanto atende a filha Giulia, de nove anos, ou manda que o cachorro da casa pare de latir, Lilia Cabral demonstra serenidade. Nem parece viver Marta, a mais carismática personagem da ‘‘Páginas da Vida’’. ‘‘O ator é um interruptor, a gente liga e desliga as emoções’’, simplifica a atriz, que vive o auge da popularidade. ‘‘Quando não chega um capítulo, fico meio perdida. A personagem já faz parte da minha rotina’’, conta. Com mais de 20 anos de carreira televisiva – Lilia estreou nos folhetins em ‘‘Os Imigrantes’’, da Band, em 1981 – a atual novela das oito é o trabalho da atriz que mais repercutiu. ‘‘É um personagem doloroso e que faz muito sucesso. Na hora que a novela acabar, vou ter de administrar o vazio e me acostumar a não conferir os e-mails toda hora para ver se o capítulo chegou’’, assume a atriz.



‘‘Páginas da Vida’’ já completou seis meses no ar. No início, muita gente rejeitava as atitudes da Marta, mas com o desenvolvimento da história e com a resignação do Alex, as pessoas até assumem que sentem pena da personagem. Como você a avalia?

Não sinto pena da Marta. E, se sentisse, faria com que o público ficasse com dó dela. Essa não é a função da personagem. Ela é uma mulher que se mostra através de suas atitudes, é digna de pena, mas ao mesmo tempo é digna de ódio. Esse confronto de sentimentos é permanente para o público. Se eu demonstrar qualquer atitude de compaixão pela Marta, estarei defendendo-a. E não posso defendê-la porque senão a personagem fica morna. Não posso ficar justificando cada atitude dela.



Parte do público passou a entendê-la mais com o decorrer da trama porque a Marta é um fragmento de outras pessoas?

Acho que é mais ou menos isso mesmo. Nas tragédias gregas ou shakespeareanas, todos os personagens têm falhas enormes. A Marta tem várias falhas trágicas. As pessoas têm vergonha de dizer que têm preconceito. No convívio social se mostram politicamente corretas, mas quando chegam em casa revelam seus reais sentimentos. É assim em relação aos homossexuais. E em relação a crianças com Síndrome de Down é pior ainda. Na frente dos outros dizem: ‘‘Olha, que gracinha’’. Mas entre quatro paredes contam que jamais fariam, por exemplo, o que a Helena – personagem da Regina Duarte – fez. Quando chegam em casa pensam: ‘‘Graças a Deus meu filho não tem Down’’. Todas essas coisas a Marta fala, assume e faz. Porque a vida não facilitou com ela então ela não facilita com a vida. E quando o público se pega pensando como ela, há uma certa condescendência. De vez em quando as pessoas chegam até mim e falam que concordam com algumas atitudes dela. Isso acontece desde o início da novela. Lembro-me de quando ela bateu o carro, o marido não fez nada, ela saiu e teve de resolver tudo sozinha. Então ela chegou em casa, pensou em como sua vida é desgraçada e chorou, sozinha. Muita gente deve ter se visto ali.



Você acha que a Marta já foi feliz com esse marido inexpressivo e apático?

Acredito que sim. E o Maneco deixa isso transparecer em alguns momentos. Porque se a pessoa não amou nunca, não sentiu nada nunca, essa relação não existiria. Há uma fraqueza de sentimentos ali que não deixa um se desvencilhar do outro. Mas com os acontecimentos mais recentes, como Marta esconder que a neta está viva, ainda vai dar pano para manga.



Desde que a novela estreou, você teve alguma reação negativa do público?

Não. Ninguém me disse desaforo ou foi violento. Acho que antigamente confundiam mais ator com personagem. Na época em que a Beatriz Segall fez a Odete Roitman, por exemplo. Ela falava o que sentia sem pudor, não gostava de pobre e tinha atitudes muito agressivas. A atriz acabou ficando com o estigma. Um dia desses, em uma cena, a campainha tocava e eu dizia: ‘‘tomara que não seja mais um pivete do Cantagalo’’. O pessoal do Cantagalo ficou triste e entendo perfeitamente. Afinal de contas, me referi a uma favela, um lugar violento, mas a maioria das pessoas que vive lá é trabalhadora e tenta viver dignamente. E quando isso aparece na televisão parece que lá só tem pivete. Pelo que sei a comunidade de lá não confundiu atriz e personagem. Se não me conhecem direito, no entanto, podem achar que penso como a Marta. É uma situação que pode ser perigosa.



Na sua opinião, que fim a Marta deve ter na novela?

Eu gostaria que ela morresse. Porque não há o que fazer com ela. Arrumar um homem para suprir suas carências? Não acho esse um bom fim para ela.

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