O filme ‘‘Sem Destino’’ (Easy Rider), símbolo máximo da contracultura, é analisado pelo crítico norte-americano Lee Hill em livro que chega agora ao Brasil
A contracultura erigiu um estoque considerável de ícones. Mas poucos traduziram as tensões da época como ‘‘Sem Destino (Easy Rider)’’, o amargo road movie protagonizado por Dennis Hooper, Peter Fonda e Jack Nicholson.
Mais de trinta anos depois de sua primeira exibição, o filme continua alimentando controvérsias, como prova o lançamento no Brasil do livro homônimo de autoria do crítico norte-americano Lee Hill pela coleção Artemídia da editora Rocco.
Definido em guias de cinema como uma trip lisérgica, ‘‘Sem Destino’’ mostra Hooper e Fonda na pele de dois motoqueiros que rodam pelas estradas atravessando comunidades hippies, ranchos e cidades interioranas em busca de um lugar ao sol no Sonho Americano. Ao longo da jornada, topam com a simpatia de algumas pessoas e a hostilidade de outras.
Vendem cocaína ao traficante Phil Spector, fumam maconha com o advogado rebelde Jack Nicholson e se empapuçam de ácido num cemitério de Nova Orleans com a prostituta Karen Black. A liberdade, porém, choca-se com a polícia e os caipiras. ‘‘Sem Destino foi o pequeno filme de estrada que surgiu do nada para mudar Hollywood para sempre’’ – diz Lee Hill na abertura do livro.
Inaugurando uma nova fase da meca do cinema, ‘‘Sem Destino’’ ficou célebre como um raro caso de filme cult bem-sucedido comercialmente. Embora o orçamento modesto, o tom desolador e o final deprimente não constituíssem uma combinação promissora, o filme foi a quarta maior bilheteria do ano de 1969 nos Estados Unidos deixando para trás superproduções como ‘‘Alô, Dolly’’, de Gene Kelly.
O longa recebeu duas indicações para o Oscar, nas categoria de melhor ator coadjuvante (Jack Nicholson) e melhor roteiro original. A estréia no Festival de Cannes foi recebida com um silêncio atônito seguido de uma ovação de pé. A Palma de Ouro foi arrebatada por ‘‘Se...’’, de Lindsay Anderson, uma alegoria poética da rebeldia estudantil que sacudia a época. Mas Hopper levou um prêmio para casa como ‘‘melhor diretor novo’’.
Até chegar às salas de exibição, porém, a produção sofreu diversas avarias. É o que conta Hill ao longo das cento e poucas páginas de seu volume. Segundo o crítico, o filme nasceu de uma ‘‘visão’’ de Peter Fonda, depois de fumar um baseado num hotel em Toronto, Canadá. O ator pitava observando uma foto do filme ‘‘The Wild Angels’’ (de Roger Corman), no qual aparecia ao lado de Bruce Dern em frente de duas motocicletas, quando – talvez sob o efeito da marijuana – imaginou-os como dois caubóis modernos.
Só que no lugar de John Wayne ou Gary Cooper, visualizou dois hippies viajando sobre as duas rodas através dos Estados Unidos. Empolgado com a ‘‘iluminação’’, Fonda telefonou para seu amigo Dennis Hopper, um ator que – como ele – só conseguia papéis secundários de desajustados e vilões e já pensava em abandonar a profissão para se tornar professor de arte dramática.
Depois de persuadí-lo, conquistou involuntariamente para o projeto o então aclamado roteirista Terry Southern, que topou inclusive trabalhar em troca de um cachê irrisório. Tudo parecia ir às mil maravilhas. Mas no transcorrer das filmagens, vários conflitos de egos vieram à tona revelando as diferenças de formação de cada um dos envolvidos na empreitada.
A começar pelos rompantes ditatoriais de Hooper. Hill conta que já no primeiro dia de filmagem, o diretor estreante surpreendeu os integrantes da pequena equipe gritando a plenos pulmões diversas vezes: ‘‘Esta porra é meu filme!’’. O chilique aborreceu Fonda e os demais a um tal ponto que acabaram rodando parte do filme sem ele nesse primeiro dia. Na mesma noite, Hooper desentendeu-se com Southern desprezando suas sugestões para diversas sequências do roteiro, o que resultou em grande parte de material improvisado.
Mais adiante, Fonda e Hopper disputaram entre si para saber quem detinha de fato a última palavra sobre o set de filmagem. O mal-estar prosseguiu com alterações no roteiro levadas a cabo por Fonda, sem o aval de Southern, que se queixaria de um ‘‘diálogo cretino’’. Para Hill, o roteirista forneceu a base sólida sobre a qual as improvisações ocorridas durante a filmagem puderam se tornar desdobramentos lógicos do roteiro e não meros acasos felizes.
O crítico sustenta ainda que ele possuía uma compreensão mais profunda a respeito das questões levantadas no filme do que seus parceiros. A Hopper, contudo, ele atribuiu a responsabilidade pela escolha das músicas ao convencer seus colaboradores a abandonar a trilha sonora encomendada ao grupo Crosby, Stills & Nash.
Graças à sua interferência, a trilha foi fundamental para o estouro do filme despontando como um painel convincente do rock americano dos anos 60 ao incluir canções de Jimi Hendrix, Steppenwolf, The Band, The Byrds e outros nomes de menor brilho. Hill vai fundo nos bastidores e na análise das tendências culturais e políticas livremente expressas no longa.
Na contramão da maioria dos críticos, defende ‘‘Sem Destino’’ da pecha de filme datado. Para ele, a obra sintetiza tanto os ideais da contracultura quanto antecipa a negação desses ideais no desespero e na paranóia de um país dilacerado pela derrota na guerra contra o Vietnã e pelo escândalo de Watergate.

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