Sem destino
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 06 de agosto de 2012
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
''On The Road'', romance do escritor norte-americano Jack Kerouac (1922 - 1969) que deu origem a ''Na Estrada'', novo filme do diretor Walter Salles, é uma obra onde não cresce musgo. Sobre ela há toda uma aura comparável apenas àquela que paira sobre os emblemáticos discos de rock.
Muita gente não entende o motivo de tanto barulho, de tanta devoção à um romance de teor basicamente juvenil. O motivo é relativamente simples: em ''On The Road'' Kerouac retratou algo que ainda não havia sido retratado pela literatura - vale lembrar que o livro foi escrito em 1951. Retratou o começo de um sentimento juvenil que ganharia grandes proporções ao longo das décadas seguintes: a liberdade.
Aproveitando a estréia do filme no Brasil, a editora L&PM acaba de lançar uma nova edição do romance, ''On The Road - Na Estrada''. A tradução (de Eduardo Bueno) é a mesma presente em ''On The Road - Pé na Estrada'' publicada em 2004 pela mesma editora em formato pocket - que, por sua vez, é a mesma, devidademente revisada, da primeira edição brasileira do livro de 1984 publicada pela editora Brasiliense.
De acordo com a lenda, Jack Kerouac teria escrito ''On The Road'' em apenas três semanas chapado de benzedrina. Para não perder tempo trocando as folhas de papel da máquina de escrever, utilizou um rolo de papel para telex com quarenta metros de comprimento. Sua intenção era escrever o romance num jorro só, num fluxo ininterrupto sem parágrafo nem pontuação. Algo que passaria a ser chamado ''prosa espontânea''.
De acordo com os fatos, Jack Kerouac até escreveu, em 1951, a primeira versão do livro num único e doido jorro de três semanas, mas reescreveu todo o texto várias vezes ao longo dos anos. Também, ao longo dos anos, o livro foi recusado sucessivamente por sete editoras. Quando finalmente uma editora aceitou publicar o romance em 1957, exigiu que o autor suprimisse 120 páginas do original. E solicitou sua devida pontuação.
Entre a lenda e os fatos, existem dois ''On The Road'' para colocar mais fogo na aura do livro. Um seria a versão com cortes, a mais conhecida. Outro seria a versão original, tal como a obra foi concebida. A L&PM lançou, no ano passado, essa versão original, ''On The Road - O Manuscrito Original'', baseada no texto resgatado pelo pesquisador Howard Cunnell. O leitor tem a oportunidade de escolha.
Todo o enredo da obra se resume no relato de viagens de carona que Kerouac realizou pelos Estados Unidos na companhia de amigos, principalmente ao lado Neal Cassady, entre 1947 e 1950. Tudo regado a drogas, sexo e jazz. A paisagem descrita não é meramente a geográfica. É, acima de tudo, a paisagem humana: jovens em busca de uma vida mais autêntica possível.
Logo nas primeiras páginas Kerouac apresenta o mapa da viagem: ''Para mim, as melhores pessoas são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante pode-se ver um brilho azul e intenso.''
O grande personagem de ''On The Road'' é Dean, inspirado na figura de Neal Cassady, que para Kerouac teria sido o mais autêntico dos beatniks. Orfão de mãe, Cassady passou a infância na rua, ao lado do pai alcoólatra que vivia como andarilho. Frequentou vários reformatórios e cumpriu algumas penas por furto. Era um exímio ladrão de carros. Segundo suas próprias contas, teria surrupiado mais de 500 automóveis. Furtava, dava uma volta e abandonava o carro intacto, apenas com o tanque um pouco mais baixo. Furtava para se divertir.
Em 1964 Cassady se tornou motorista do lendário ônibus dos Pranksters, grupo encabeçado pelo escritor Ken Kesey (autor de ''Um Estranho no Ninho'') que percorria os Estados Unidos distribuindo LSD para o pessoal ''expandir a consciência''. Isso antes da droga se tornar proibida pelas autoridades. Essa pirada aventura é narrada por Tom Wolfe no livro ''O Teste do Ácido do Refresco Elétrico'' (Editora Rocco, 1993) num relato hilário. Cassady se tornaria, depois, motorista da banda de rock The Grateful Dead.
Cassady morreu em 1968, com 42 anos de idade. Seu corpo foi encontrado ao lado dos trilhos de um entroncamento ferroviário no México. Os motivos de sua morte nunca foram bem explicadas. A versão mais é aceita é que tenha morrido de overdose.
O grande sonho de Cassady era se tornar escritor. Até a amizade entre ele e Kerouac teve início a partir de seu interesse em aprender literatura. Embora não tenha concluído nenhum livro dos vários que começou, diz a lenda que foi Cassady que influenciou o estilo literário ''On The Road''. Kerouac teria desenvolvido a ''prosa espontânea'' a partir da linguagem das cartas que recebia do amigo.
Serviço:
''On The Road - Na Estrada''
Autor - Jack Kerouac
Editora - L&PM
Tradução - Eduardo Bueno
Páginas - 196
Quanto - R$ 39,00
''On The Road - Pé na Estrada''
Autor - Jack Kerouac
Editora - L&PM
Tradução - Eduardo Bueno
Páginas - 384 (pocket)
Quanto - R$ 21,00
''On The Road - O Manuscrito Original''
Autor - Jack Kerouac
Editora - L&PM
Tradução - Eduardo Bueno e Lucia Britto
Páginas - 464 - (pocket)
Quanto - R$ 24,00
Fragmento:
Agora saca esse pessoal aí na frente. Estão preocupados contando os quilômetros, pensando em onde irão dormir essa noite, quanto dinheiro vão gastar em gasolina, se o tempo estará bom, de que maneira chegarão onde pretendem - e quando terminarem de pensar já terão chegado onde queriam, percebe? Mas parece que eles têm que se preocupar e trair suas horas, cada minuto e cada segundo, entregando-se a tarefas aparentemente urgentes, todas falsas; ou então a desejos caprichosos puramente angustiados e angustiantes, suas almas realmente não terão paz a não ser que se agarrem a uma preocupação explícita e comprovada, e tendo encontrado uma, assumem expressões faciais adequadas, graves e circunspectas, e seguem em frente, e tudo isso não passa, você sabe, de pura infelicidade, e durante todo esse tempo a vida passa voando por eles e eles sabem disso, e isso também os preocupa num círculo vicioso que não tem fim.
(Fragmento de ''On The Road - Na Estrada'' de Jack Kerouac)


