Sem batom e salto alto
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de setembro de 1997
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
Mauro FrassonAdélia Prado não fala sobre os novos livros nem escreve para livros alheiosA poeta Adélia Prado é quem conta: escreve no momento dois livros, um de prosa e outro de poesia. Este último ficará pronto até o final do ano, ganhou nome que será mantido em segredo até a hora exata de ser anunciado. Superstição? De jeito nenhum: Aprendi que a gente ficar mais prudente é mais interessante. Isso realmente tem um anteparo real, uma preservação, diz ela.
A conversa da escritora com jornalistas curitibanos aconteceu na Feira do Poeta, próximo ao Memorial da Cidade, onde ela encontrou-se, na quarta-feira à noite com seus leitores. Agora segue de carro, junto do marido José, até Passo Fundo (RS). Espera-os um encontro literário.
Ser poeta, para a mais festejada poeta brasileira, é um dom, uma missão. Ela não dispensa o que poderia ser um título de nobreza. Pelo contrário, aceita-o com alegria, ainda mais quando a gente descobre que poeta não é aquele que tem os pés fora, mas centrados no real.
Tem mais: poesia não é feita com talento, segundo a autora de Bagagem e mais oito livros, entre prosa e verso. Talento a gente tem para escrever bonito. A poesia não é uma palavra bonita. Ela é bela, diz, dando ênfase nas palavras. É outra beleza - da epifania, do real. Nesse sentido você pode falar da coisa mais horrenda do mundo, e o poema fica maravilhoso. É outro nível, outro estatuto da beleza.
Uma coisa sóCom um novo trabalho poético sendo gestado, Adélia sente-se à vontade para afirmar que a gente escreve uma coisa só. Dá vôos, aprofunda, segue à tona, faz volteios mas tem-se apenas uma coisa para dizer. E o que seria essa coisa? A vida. A vida e seus limites, sua exigência, seu desejo profundo, seu sentido.
Na sua opinião, a arte nada mais é que a extrapolação do limite. Por causa desses limites é que ela vai além, transformando as palavras em chamas, em espelhos de emoções onde outros possam se refletir, cada qual à sua maneira. Um exemplo claro de como o limite incomoda e cria é o surgimento das pérolas, produzidas com o incômodo de grãos de areia sobre as ostras. Estou aqui fazendo um poema de segunda categoria, mas vá lá, desculpou-se.
A fama resulta em carinho, muita correspondência chegando em casa (lê tudo, não responde a ninguém por absoluta falta de tempo) e muitas teorias a seu respeito. Diz a poeta que começam a acontecer uns folclorezinhos, mas é normal. Do que saiu na imprensa paranaense, gostou bastante. Elogiou a fidelidade.
Os jovens autores que não se iludam - Adélia Prado não escreve orelha de livro, prefácio, posfácio ou o que quer que seja. Estou virgem desse crime até hoje, exclama, criando ao vivo uma frase que poderia estar na boca de Fernanda Montenegro em Dona Doida.
A teimosia em se manter calada sobre livro alheio tem uma explicação:
- Acho que fico agoniada por estarem me achando uma poeta antiga. Eu quero ser poeta agora, tenho muito incômodo com essa imagem de um poeta dando conselho ao outro. Isso me dá uma agonia danada. Quero estar errando ali, sofrendo com meu livro, igual ele lá.
O frescor da novidade ao terminar um poema continua intacto, mesmo tendo se passado 20 anos depois de aparecer ao Brasil e, mais tarde a alguns países do mundo. Ainda bem que é assim. Fosse de modo diferente e ela seria muito infeliz. Tenho a mesma sensação de novidade e de estranheza. E uma alegria profunda. Pode ser o livro mais triste deste mundo, que o resultado é de pura alegria.
MensagemAdélia Prado gosta de conversar com o público, desde que não apareçam jovens autores pedindo uma mensagem. Essa história não é com ela, a começar pela própria palavra, que lhe dá pavor. Conta uma experiência vivida em Londrina, quando vinha a Curitiba.
Foi a uma missa, estava indo tudo bem até o padre falar da mensagem do Evangelho. Doeu no meu ouvido. A palavra viva não tem mensagem, ela já está dizendo. Ou eu pesco ou não. Um desastre ecológico, a seu ver, é o professor mandar o aluno tirar mensagem do poeta. Cabe mais a um estudante de Letras. Uma pessoa comum tem que sair pulando de alegria, louca por ter visto um trem bonito demais.
Outra tirada de Adélia: quando alguém escreve um poema triste, está desatolando o pé da tristeza. Uma pessoa que está na boca do inferno não acha lápis nem caneta. Dizer ai, meu Deus, que tristeza, cadê minha caneta? é sinal de que a vida tomou seu caminho maravilhoso, descobriu-se o verbo para o sentimento da alma.
Mas não pense o leitor que deitar no papel tudo aquilo que corre nos pensamentos, feito reflexos de sentimentos, seja poesia. Na visão da poeta não é nada disso. Poesia é expressão, assevera a mineira. A coisa que ela (a poesia) mais odeia é o enfeite, a retórica. Fujo disso como o diabo da cruz. Quer dizer que poesia não usa batom? Não, nem salto alto, responde de pronto Adélia Prado.


