A presença de Ana Beatriz Nogueira na tevê é cada vez mais constante. Principalmente em papéis que se equilibram na linha que separa os vilões dos antagonistas. Como a inconsequente Eva, de ''A Vida da Gente'', uma mãe que não faz a menor questão de esconder o amor doentio que sente pela filha mais velha, Ana (Fernanda Vasconcellos), e o descaso em relação à caçula Manu (Marjorie Estiano).
Essa coincidência de personagens amargas na carreira - ela também encarnou, recentemente, a vilã Frau Herta, de ''Ciranda de Pedra'' e a interesseira Ilana, de ''Caminho das Índias'', entre outras - não chega a preocupá-la. ''Não sou uma atriz que o público teve a chance de enjoar. Passei anos fazendo poucas coisas na tevê. Meu rosto não ficou tão marcado assim'', avalia a atriz, esbanjando simpatia.
O que você tem ouvido nas ruas sobre essa personagem?
Não tenho ido muito às ruas, mas vejo coisas que escrevem na internet. Escuto e leio desde ''você é insuportável'' até alguns ''amo a Eva''. Tem de tudo. Mas é claro que as pessoas não torcem por ela, torcem pela Ana, que é a mocinha. Querem que ela seja feliz, que fique bem. E a Eva também. Mas ela torce dentro do que ela pensa que é felicidade. E é ser campeã, dar certo, para ela ter uma boa vida. Por isso algumas pessoas encaram a Eva como vilã.
Você também?
Ela não é má. É uma mãe adoecida, que tem tanto um amor desmedido por uma filha quanto um desamor desmedido por outra. Ela está fora da medida em ambos os lados. E é isso que a deixa humana. Não é maldade, ela está absolutamente e absurdamente enganada sobre as coisas, vê distorcido. É uma mulher que, a meu ver, tem pouquíssima vocação para a maternidade, mas está longe de uma vilã que quer matar ou ser má. Ela acaba se tornando vilã em algumas situações em função desse amor que sente pela Ana. E como ''A Vida da Gente'' não tem um vilão, se tiverem de escolher algum para apontar, sobra a Eva, o personagem do Paulo Betty e a da Gisele Fróes. O Jayme uma vez falou em uma reunião quando eu perguntei se ela era vilã: ''nessa novela, vilã é a vida''.
A Eva é uma mulher distante do tipo de ''boa moça'', como a maior parte das suas personagens na tevê. Já sentiu receio de ficar taxada como ''a chata'' pelos telespectadores?
Não fico pensando nisso. Eu quero fazer cada papel como ele é. E não é mudando cabelo ou colocando óculos, são outras coisas que diferenciam. É engraçado porque eu não tive essa reação que você fala quando recebi o convite para fazer a Eva, por exemplo, mas acho que experimentei o contrário em ''Insensato Coração''. Ali, sim, achei uma delícia interpretar uma mulher tão correta. Você sai nas ruas e as pessoas mandam beijos, dizem coisas carinhosas e você não precisa nem de análise. É só sentar um pouquinho ali na Visconde de Pirajá (rua de Ipanema, na Zona Sul carioca) que o pessoal coloca você para cima. E eu estava tão acostumada a levar bronca por causa das personagens...
Mas você sempre foi uma atriz bissexta na tevê. Depois de ''Celebridade'', em 2004, é que começou a marcar mais presença nas novelas...
Sim, eu fazia muito cinema e uma peça atrás da outra. Não faço cinema há alguns anos e dei uma emendada em novelas mesmo. Mas a carreira é uma coisa particular e que se estabelece por inúmeros fatores. Não foi porque eu quis ou deixei de querer fazer televisão. As oportunidades foram me levando a esse caminho.
O que a leva a pensar isso?
Não sei. Mas eu achava engraçado quando anunciavam uma peça com a fulana de tal, da Globo, e a atriz ''cult'' Ana Beatriz Nogueira. Ficava pensando ''mas o que é 'cult'? É quem não faz novela na Globo, não é?'' (risos). Isso não é ser ''cult''. Na verdade, eu estava indo onde a onda daquele momento me levava. E fazendo as peças que eu sonhava fazer.
O que você acha que contribuiu para que enxergassem você como uma atriz ''cult'' que poderia não se interessar por televisão?
Acho que isso veio de prêmios. Ganhei alguns internacionais e não só com ''Vera'', meu filme de estreia. Aconteceu de algum diretor ficar sem graça de me convidar para um ou outro papel não tão bom ou grande por eu ter ganhado prêmios tão importantes. E eu sempre assinei por obra certa.
Hoje em dia, quais são suas vontades em relação à televisão?
Eu gostaria de fazer uma personagem mais cômica. Mas, na verdade, eu não digo ''não'' para uma boa personagem. Seja ela da turma das amargas, como a Eva, ou das solitárias, das vilãs, enfim, de qualquer grupo. Mas gosto das comédias de situação. Acho muito gostoso o que resulta em graça sem ter necessariamente de fazer graça. Mas falo isso agora, que estou no meio de uma novela densa.
Você gostaria de interpretar uma heroína?
Nunca tive perfil de mocinha. Ao contrário, sempre tive o perfil da inimiga da mocinha, da louca da casa ao lado... Mas essa é uma coisa emblemática do imaginário de televisão. E, cá entre nós, normalmente as mocinhas não eram personagens que eu almejava. Acho que, com a idade, essa profissão tem uma vantagem incrível. Como tenho formação de palco, só melhoro com o tempo. Tanto que as grandes personagens estão para vir. E digo isso aos 45 anos. Tenho mais ferramentas de trabalho a cada ano que passa. É diferente daquela jovem atriz lançada como mocinha que faz uma carreira de televisão. Eu sempre tive pouca tevê no currículo - não por escolha minha, como eu já mencionei, mas do destino mesmo. Hoje, essa preparação é um diferencial.

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