Arquivo FolhaTom Jobim: ‘‘The Composer of ‘Desafinado’ Plays’’ foi gravado em maio de 63Preciosos relançamentos, resgate de raridades, novidade auspiciosa. Para este ano, o selo Verve, representado no Brasil pela PolyGram, programou a caprichada reedição de quatro títulos mais do que significativos - The Composer of ‘Desafinado’ Plays, primeiro disco gravado nos Estados Unidos por Tom Jobim, Bird and Dizz, com Charlie Parker e Dizzy Gillespie, April in Paris, com a orquestra de Count Basie, e Conversations With Myself, o fundamental solo do pianista Bill Evans.
Em CD duplo produzido pela Propeg (também com distribuição da PolyGram) e repertório organizado por Ruy Castro, Chega de Saudade traz faixas raras do tempo da bossa. Por enquanto, é um brinde para clientes do patrocinador. Ainda não está à venda, mas estará. Por fim, ainda da Verve, disco novíssimo e maravilhoso: Finger Paintings - The Music of Herbie Hancock, que junta três dos melhores músicos do jazz dos anos 90: o baixista Christian McBride, o trompetista Nicholas Payton e o guitarrista Mark Whitfield. Já os vimos no Free Jazz.
The Composer of ‘Desafinado’ Plays foi gravado em dois dias de maio de 1963, com produção de Creed Taylor e arranjos e regência de Claus Ogerman. O maestro viria a ser parceiro constante de Jobim; o produtor, ainda bem, não fixaria seu nome ao do mestre brasileiro. Sérgio Cabral conta, na biografia de Tom Jobim, que Taylor fez confusões, deixou de pagar o que devia, etc. Pior do que isso, Taylor é o maior dos responsáveis pela edulcoração da bossa nova no cenário internacional. Usou o selo que criaria em seguida - Creed Taylor Interprises, CTI - para gravar discos pavorosos utilizando o ritmo brasileiro, quase sempre mal aproveitado por estrangeiros. É o responsável pela ruína musical do guitarrista (antes de trabalhar com ele, muito bom) George Benson. Entre outras façanhas deploráveis.
O disco de Jobim o redimiria. A nova edição de The Composer of ‘Desafinado’ Plays segue a linha cuidadosa dos relançamentos do selo Verve. Embalagens em papel cartão que se abrem em três sessões, reproduzem em ponto menor a capa original, trazem as notas originais e acrescentam dados históricos no encarte. Neste caso, corrige-se o nome da música Amor em Paz, que na primeira edição foi batizada de O Morro, sabe-se lá por quê. Em Água de Beber ouve-se o fabuloso solo de trombone de Jimmy Cleveland, com contracanto de flauta de Leo Wright e solo do piano econômico de Tom Jobim. No encarte, uma entrevista com o compositor e arranjador Johnny Mandel, concedida em janeiro do ano passado a Bob Belden. Elogioso, Mandel vê identidade entre as músicas de Jobim e Cole Porter.
The Composer... estava fora de mercado. É lindíssimo e fundamental e, em tempo, a revista Billboard, voz oficial do jazz, concedeu-lhe a cotação máxima. Mesma pontuação que teve Conversations With Myself, um dos mais belos discos de piano de todos os tempos - e, mais do que isso, um trabalho que definiu como deveria soar o instrumento a partir dali, ano de 1963. Às nove faixas originais foi acrescentado o Bemsha Swing, de Denzil de Costa Best e Thelonius Monk. O gênio de Thelonius ofereceu matéria-prima para a faixa que abre o disco, Round Midnight, standard dos standards, e ainda a Evans a oportunidade de construir uma de suas melhores criações, no clássico Blue Monk. Se fosse o caso de escolher só um disco de piano para levar para a ilha deserta, esse seria o indiscutível. Ou melhor: disputaria com Solo Monk, de Thelonius. Perto, os outros são fichinha.
April in Paris junta 17 faixas de Count Basie com sua orquestra (em formações diferentes), gravadas em 1956 e 1967. O April in Paris original tinha apenas dez músicas - as dez que primeiro vão tocar no seu aparelho. As outras sete foram acrescentadas na montagem de relançamento: são takes alternativos e inéditos de algumas das músicas do score original. Um prazer identificar as sutis diferenças entre um take e outro, prazer adicionado ao de ouvir a música do maior dos bandleaders. Bird and Diz oferece oportunidade semelhante, pois traz dez takes alternativos de Leap Frog (além do que saiu na edição original do disco, em 1950), outros cinco de Relaxin’ With Lee e ainda, claro, a melhor gravação existente de Mohawk, de Charlie Parker, definição do estilo bop. Com Charlie Bird Parker e Dizzie Gillespie, sax alto e trompete, estão Thelonius Monk, sempre ele, ao piano, Curly Russel, baixo, e Buddy Rich, bateria.
Em abril do ano passado, três dos melhores músicos da novíssima geração do jazz reuniram-se, outra vez sob a égide da Verve, para homenagear o pianista e compositor Herbie Hancock. O trompetista Nicholas Payton e o baixista Christian McBride mal passaram dos 20 anos. O guitarrista Mark Withfield mal passou dos 30. Hancock está na casa dos 50. É curioso o ensejo. Herbie Hancock esteve na formação de Miles Davis que eletrificou o jazz. Os três que o homenageiam representam a ponta mais nova da corrente que luta contra a deterioração do gênero em consequência daquele trabalho de Miles.
Mas Hancock é um músico extremamente talentoso, como instrumentista e compositor, e as 14 faixas apresentadas em Finger Paitings flutuam como a nata de sua obra autoral. E se Hancock se alternou, como instrumentista, por escolas e estilos (nem sempre com bons resultados), o disco consegue extrair das faixas unidade e apontar nelas consistência nem sempre visível (em tempo: as selecionadas são quase todas da melhor fase de Hancock, os anos 60, incluindo-se os temas da trilha sonora do filme Blow Up, de Michelangelo Antonioni). Mas McBride, Payton e Whitfield precisavam apenas de um pretexto para tocar juntos. São o que há de melhor, toquem o que tocarem.
Em 1953, portanto dez anos antes que Jobim lançasse para o mundo a bossa nova, com status de grande música, o hoje esquecido conjunto Os Namorados gravava Eu Quero um Samba, de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa, uma curiosa leitura protobossa-novista que Ruy Castro escolheu como primeira das 28 faixas do CD duplo Chega de Saudade, prenúncio das curiosidades que virão nas outras faixas. Prenúncio musical do que os Cariocas fariam. O balanço é dado por um acordeão - tocado por João Donato, está explicado.
Dick Farney (Ninguém na Rua, de Bily Blanco), Silvinha Telles (Ilusão à Toa, de Jonnhy Alf), Lúcio Alves (Cheiro de Saudade, de Djalma Ferreira e Luís Antônio), Maysa - ao vivo, cantando Fim de Noite, de Chico Feitosa e Ronaldo Bôscoli - são outras das atrações do primeiro disco que, de quebra, tem Astrud Gilberto e Jobim (Só Tinha de Ser com Você, de Jobim e Aloísio de Oliveira), Roberto Menescal e seu conjunto (Surfboard, de Jobim), Cyro Monteiro (Deixa, de Baden Powell e Vinícius de Morais) e a primeiríssima gravação de Vinícius de Morais: Pela Luz dos Olhos Teus, dele só.
Para citar algumas. No segundo CD: Minha Namorada, de Carlos Lyra e Vinícius, com o poetinha e o Quarteto em Cy, Diz Que Fui por Aí, de Zé Kéti, com Nara Leão (que também canta Sabe Você, de Carlos Lyra e Vinícius; por falar nela, onde andam os discos de Nara, que a PolyGram jamais relança?), E Nada Mais, de Durval Ferreira e Lula Freire, com Os Gatos... uma seleção para tocar e tocar. A maior parte dos registros não está disponível nas prateleiras das lojas, por mais especializadas que sejam. O que já torna urgentemente obrigatório o lançamento comercial da compilação.

mockup