Zeca Corrêa Leite
Curitiba

ReproduçãoO mundo discográfico, comandado pelas milionárias multinacionais, impõe o que deve ser tocado, cantado e consumido pela massa. Mas assim como tem artista que se presta a esse serviço, tem também os que se dedicam a outros ramos musicais mas não encontram meios para colocar em disco aquilo que produzem e tocam. Pensando nessa gente foi criado o selo Cantaro.
‘‘A idéia era fugir aos moldes empresariais’’, confirma o maestro José Eduardo Gramani, criador do selo. O primeiro disco da gravadora foi ‘‘Mexericos da Rabeca’’, com o Duo Bem Temperado, lançado em Curitiba durante a 6ªOficina de Música Popular Brasileira.
O segundo será do grupo curitibano ‘‘Terra Sonora’’, especializada em repertório inusitado, com músicas recolhidas de todo o mundo. Como o CD deve ser lançado ainda neste semestre, irá coincidir com o aniversário de três anos do conjunto.
CooperativaGramani, quando diz que pensava em ‘‘fugir aos moldes empresariais’’ ao criar a Cantaro, não se refere somente ao lado artístico. O conceito engloba também a parte prática - o selo terá como característica o cooperativismo.
Embora esteja aberto a associados, José Eduardo Gramani avisa que é preciso limitar essa entrada. ‘‘Convidamos quem conhecemos, aqueles que têm afinidade com a gente’’. O investimento empregado não é grande, dividindo em partes torna-se viável para todos, explica.
O interesse do grupo foge ao convencional também quanto aos lucros. ‘‘Não visamos lucros empresariais. Com o tempo ele virá, mas não é esse nosso objetivo principal. De início a meta é a seguinte: o primeiro disco viabiliza o segundo que dará condições para a gravação do terceiro e assim por diante.
Unidos pelo gostoPlínio Silva, fundador do ‘‘Terra Sonora’’, comenta que ‘‘o bom da cooperativa é porque ela une as pessoas pelo gosto. É uma coisa fantástica’’. Envolvidos com o projeto estão os proprietários da loja ‘‘801 Discos’’, Horácio e Pedro do Rosário.
Com a Terra Sonora eles vinham colaborando através de material para pesquisa, porque a casa também tem esse perfil de atender a um público que não é exatamente o de Chitãozinho e Xororó ou Júlio Iglesias. Trabalhando com importados, muita coisa que eles recebem passam para o conjunto. Agora estão com a Cantaro.
Ali pode ser encontrado - além de outros endereços - o ‘‘Mexericos da Rabeca’’. Gramani está exultante, porque o violeiro Roberto Corrêa entrou no grupo e com ele ampliam-se os horizontes do selo. São três pólos importantes: Campinas (onde mora o maestro), Curitiba e Brasília, com ramificações a Minas Gerais e Goiás através de Corrêa, que está sempre circulando por essas regiões.
Com esses ‘‘pólos fortes’’ ameniza o drama vivido pelas gravadoras independentes, que fatalmente estão sozinhas em termos de produção e de distribuição. Também a divulgação dos discos segue de forma quase quixotesca, porém esse é o caminho, feito de puro idealismo.
Quando decidiu-se a gravar um disco somente de violino, Gramani não imaginava que estava dando início a um processo destas proporções. Ele só queria editar o CD porque as grandes gravadoras são fechadas a trabalhos como o dele.
Acabou sendo atropelado pelos acontecimentos, a rebeca e o cravo ocuparam a vez com ‘‘Mexiricos’’ e entrou o grupo de curitibanos na jogada. Mas, e como fica essa história do CD do violino? ‘‘Vai acontecer’’, responde Gramani, na certeza de que a Cantaro tem muito para render.

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