Selo Festa traz a poesia de volta ao disco
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de setembro de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 20 (AE) - De agora até, no máximo, dois anos, os 103 discos do selo Festa estarão, todos, de novo disponíveis, remasterizados e editados em CD. Formam o acervo talvez mais importante da fonografia brasileira. Parte dos 103 títulos é de música popular, clássica e folclórica e 67 deles são de poesia; Manuel Bandeira por Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade por Carlos Drummond de Andrade, Vinícus de Morais por Vinícius de Morais, Pablo Neruda por Pablo Neruda, Fernando Pessoa por João Villaret, para citar alguns.
O selo Festa foi obra visionária do paulistano - da Mooca - Irineu Garcia, jornalista e frequentador da mercearia Vilariño, ponto de encontro de intelectuais no centro do Rio. Em 1956, Irineu tinha 36 anos e recebia, da França, um disco em que André Gide lia seus textos. Manuel Bandeira estava perto. "Vamos fazer um disco?", sugeriu Irineu. Drummond foi o consultado seguinte.
Quem conta a história da gênese do empreendimento é Gracita Garcia Bueno, sobrinha de Irineu. Até o fim dos anos 60, Irineu gravou quartetos de Villa-Lobos, missas do padre José Maurício, obras diversas de Radamés Gnatalli, Alberto Nepomuceno
Francisco Mignone, Cláudio Santoro, sempre que possível com os próprios autores - quando não, com os melhores intérpretes da praça. Gravou João Braga, Vadico, trovas com Lia Salgado, marchas com Nélson Souto, modinhas com Lenita Bruno. Gravou uma adaptação de "O Pequeno Príncipe", de Antoine de Saint-Exupéry
com Paulo Autran fazendo a narração sobre música de um desconhecido Antônio Carlos Jobim. E o disco "Canção do Amor Demais", com Elisete Cardoso - aquele em que, pela primeira vez
se ouve o violão de João Gilberto.
Irineu não era de esquerda, mas era intelectual (e amigo de intelectuais de esquerda). Depois de 1964, estava sendo olhado de forma esquisita pelo governo militar. Passou o acervo, em consignação, para a gravadora Philips, em 1967, e quatro anos depois achou melhor ficar um tempo fora, até que as coisas se acalmassem. Reuniu a família, disse que era uma saída temporária. Foi para Portugal. Preparava-se para voltar, em 1984 (para assumir um cargo de direção na Funarte), mas morreu, nos braços de Cardoso Pires, de um enfarte fulminante.
O contrato com a Philips havia caducado e os discos da Festa foram literalmente esquecidos. No fim de 1993 ou início de 1994, a sobrinha de Irineu resolveu reaver o acervo. Entrou em contado com a ex-Philips, hoje Universal, e responderam-lhe que nunca haviam ouvido falar dos discos, do selo Festa e muito menos de Irineu Garcia.
Gracita Garcia Bueno até entende: os atuais executivos são jovens, não ouviram os discos de Irineu. Mas sabia que estavam lá. "Mas os jornais afirmam que os discos estão com vocês", dizia. "Não acredite em tudo o que a imprensa publica", respondiam-lhe. Ela insistiu. Muniu-se de textos publicados por gente como Rubem Braga, Otto Lara Resende, Darci Ribeiro (amigos e companheiros de Vilariño do tio) que confirmavam suas palavras.
Nem mesmo os executivos jovens e incipientes duvidariam de Rubem, Otto, Darci. Por fim, um almoxarife com mais de 40 anos de empresa se lembrou das matrizes. Gracita foi buscá-las de caminhonete e as recebeu, contra recibo. Tornou-se dona - as matrizes não tinham mais dono.
Nenhuma gravadora demonstrou interesse pelas preciosidades. Gracita (que é artísta plástica e professora) e o marido, Nicolai Dragos (artista plástico e médico) chegaram a negociar seis títulos com a Movieplay, por tempo determinado; a Movieplay limitou-se a relançar (sem nenhum alarde) a "Canção do Amor Demais", de Elisete Cardoso, que estava há mais de 30 anos esgotado.
"A Canção do Amor Demais" e os outros cinco títulos voltam, no ano que vem, à posse de Gracita e Nicolai. "Nós somos a Festa", diz ela, que com o marido, resolveu bancar a reedição dos discos. Com dinheiro do próprio bolso. Encontraram apoio na Distribuidora Eldorado. Consultaram o diretor da gravadora e distribuidora, João Lara Mesquita. Ouviram dele: ou se lança tudo, ou não se faz nada. Não há, mesmo, como escolher o que é mais importante no catálogo da Festa.
Cinco títulos já estão nas lojas: "O Pequeno Príncipe"
com Paulo Autran, Glória Cometh, Oswaldo Loureiro, Margarida Rey e música de Tom Jobim; "Antologia da Música Erudita Brasileira", volumes 1 e 2, com Arnaldo Estrela; "Moderna Poesia Brasileira", por João Villaret; e "Missa de São Sebastião", de Villa-Lobos, coral com regência de Cleofe Person de Mattos.
Ainda este mês chegam às lojas "20 Poemas de Amor e uma Canção Desesperada", lidos por Pablo Neruda; "Poemas e Canções de Federico García Lorca", com um grupo de teatro da Espanha; a "Sinfonia nº 5", de Cláudio Santoro, com o autor e a Orquestra Sinfônica Brasileira; os "Concertos para harpa e para violino"
de Radamés Gnatalli, com o autor e a mesma OSB; e as "Modinhas fora de Moda" interpretadas por Lenita Bruno.


