Selma Reis está de volta com "Ares de Havana"
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domingo, 05 de setembro de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 06 (AE) - Selma Reis foi talvez a maior revelação vocal dos anos 80. Apareceu no finzinho da década, com um disco independente, de repertório impecável, arranjos equilibrados e, sobretudo, de interpretações poderosíssimas - era uma voz que, mais do que encantar o ouvinte, o tomava de assalto. Tinha já quase 30 anos, não havia cantado na noite; fez curso de Comunicação, morou na França e começou, lá, um curso de Letras. Ao mesmo tempo, estudava canto. A voz - para que se tenha ao menos uma referência - fazia lembrar a de Clara Nunes, um pouco mais grave e encorpada, em cruzamento com a de ¶ngela Maria. Não compunha - era a intérprete que se esperava.
Tão boa que despertou a atenção da crítica e, numa década em que as gravadoras eram um pouco mais amistosas para com a boa música, foi chamada pela ex-PolyGram (a gravadora chama-se, agora, Universal Music) e fez um primeiro disco - lançado em 1990 - muito bom. Destacava-se, entre as melhores faixas, a arrebatadora intepretação de uma obra-prima de Suely Costa e Paulo César Pinheiro, "Corpo Santo", uma canção desesperada que Selma tornava ainda mais desesperada - o ouvinte embarcava na tempestade ("num cargueiro, para nunca mais") com ela.
No entanto, Selma, já ali, mostrava um acento de gosto menos sofisticado, em bobagens como "Estrelas de Outubro" (de Paulo Debétio e Paulinho Rezende) ou "Emoções Suburbanas" (de Altay Veloso, que nasceu, como ela, em São Gonçalo, cidade operária próxima de Niterói). Foi, infelizmente, essa face menos sofisticada que prevaleceu na obra de Selma Reis. O terceiro disco, "Só Dói quando Eu Rio", ainda pela ex-PolyGram, era um desperdício de talento da primeira à última faixa. Havia até músicas boas, mas com o tratamento mais apelativo, cafona, que se possa imaginar.
Pior ainda foi seu disco seguinte, de 1994, pomposo, gravado em Londres e Madri, Los Angeles e Miami, uma salada com a filarmônica londrina, bateria de escola de samba, violão aflamencado de Rafael Rabelo - e assim por diante. Havia, novamente, boas músicas no repertório (Beco do Mota, de Milton Nascimento e Fernando Brant, Sertaneja, de Ivan Lins e Victor Martins), estragadas pela produção pretensiosa, pelas interpretações exageradas, caricatas.
Dessa forma, a ótima escolha do repetório do presente disco de músicas cubanas não queria, em princípio, dizer nada. Qualidades para fazê-lo bom, Selma sempre as teve. Não as vinha usando. No caso, usou. "Ares de Havana" é um disco lindo. É o caso, parece, de uma tardia descoberta de vocação. Selma encontrou seu terreno: derrama-se sem exagerar no apelo fácil, estende a voz sobre arranjos sóbrios, doma a paixão para dar nobreza aos sentimentos de que ela trata. O mais sintomático é a intepretação de "Babalu": onde ¶ngela Maria era caricata, e sempre era, Selma tem a majestade serena de uma princesa tropical. Que assim continue, pois esse é seu trono.


