Selma Baptista se apresenta no Paiol
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quinta-feira, 25 de outubro de 2001
Zeca Corrêa Leite<br> De Curitiba 
Paulinho da Viola é um cronista que anota em caderninhos da alma aquilo que presencia em silêncio. Na erudição poética e musical, desenha o mundo dos homens comuns. Foi justamente por esse perfil que a cantora Selma Baptista se apaixonou há questão de um ano e meio e, com a ajuda do amigo Cesar Fonseca, foi se abastecendo mais e mais do compositor carioca. Assim, totalmente entregue, ela ocupa hoje e amanhã o palco do Teatro do Paiol para apresentar ''Vela no Breu'', um espetáculo feito unicamente com as canções de Paulinho.
Conhecida e incensada pelos amantes do jazz, Selma Baptista - que traz no currículo convite de Luiz Chaves, contrabaixista do Zimbo Trio, para cantar no Crowne Plaza Hotel, em São Paulo - confessa que se converteu à música brasileira, numa volta às raízes. Paulinho da Viola é o mágico condutor.
''Eu o conhecia como a maior parte das pessoas o conhece - o compositor do samba exaltação, do pagode mais autêntico do Rio. Mas quando me apaixonei por ''Vela no Breu'', comecei a investigar e a descobrir as canções de Paulinho. Fiquei mais de um ano ouvindo essas coisas. Aí resolvi fazer o show. Tem samba também, mas basicamente ele retoma choros e canções, com uma lírica, uma melodia mais sofisticada''.
O repertório e o desafio da interpretação foram preponderantes no jogo da sedução. ''Todo mundo pensa que é fácil cantar Paulinho. Não é. A música dele é feita para instrumento: a voz tem que ir lá no alto, ir para baixo, trabalhar nas regiões médias. É uma escala''. Ao mesmo tempo em que há todo esse exercício, também tem a malemolência. ''Estou descobrindo isso e fico cada vez mais maravilhada'', confessa.
''Vela no Breu'' tem como concepção ser um antídoto aos difíceis dias de nosso tempo. ''Queremos mostrar que apesar do desencanto, a música de Paulinho é um convite a superar isso, a esperar o sol nascer'', explica a cantora. Começa com uma espécie de ode à luz, ''Cantoria'', depois atravessa a fase de solidão e avança para o final. Termina com ''Quem Sabe'' (letra de Elton Medeiros): ''Quem sabe eu encontre/ pela madrugada/ uma esperança vaga/ nos olhos de alguém/ que também despertou/ de um sonho igual ao meu''.
Doutora em Antropologia, Selma tem na ciência e na música seus pilares da vida. Para ela Antropologia não é ciência: ''É o olhar, o modo de ver as coisas. É uma coisa que está entranhada na minha alma'', sublinha. A música existe nela com a mesma intensidade, porém, sem lhe trazer ânsias de fama e sucesso. ''Não preciso do sucesso; eu preciso mesmo é ter a minha alma inspirada, comprometida, renovada, arejada''.
Vela no Breu - Show com Selma Baptista cantando Paulinho da Viola. Arranjos de João Egashira (violão), com Boldrini (contrabaixo acústico), Cláudio Menandro (cavaco e bandolim), Cariline Lohmannn (flauta), Leandro Teixeira (percussão), Ricardo Rosinha (percussão). Sexta e sábado, às 21 horas, no Teatro do Paiol. Ingressos: R$ 10,00 e R$ 5,00 (estudantes e pessoas maiores de 65 anos).


