Selecionadora de Cannes procura filmes para Quinzena dos Realizadores
Brasília, 25 (AE) - Os vínculos dela com o cinema brasileiro são antigos. Tanto assim que Marie-Pierre Macia era a projecionista de uma antológica sessão de Cannes, quando o cineasta Nelson Pereira dos Santos mostrava na França seu "Memórias do Cárcere". De 1984 para cá muita água correu sob a ponte, mas Marie continuou, cada vez com mais afinco, trabalhando no ofício do cinema. Hoje ela é a selecionadora de filmes estrangeiros para a "Quinzena dos Realizadores", a prestigiosa mostra paralela do Festival de Cannes, tido como o mais importante evento do gênero no planeta. Ela está no Brasil, pela primeira vez, e em Brasília para ver os longas-metragens em competição. Se gostar de algum deles, ou de mais de um, pode levá-los para a Quinzena de Cannes de 2000.
Marie tem um vasto currículo de atividades ligadas ao cinema. Esteve ligada vários anos à Cinemateca Francesa, na época sob a direção de Costa-Gavras, que a chamou para trabalhar na restauração de filmes antigos. Depois, viajou para os Estados Unidos, onde deveria ficar apenas um ano, em estágios na Ucla, na Universidade de Nova York e em Berkeley. Acabou ficando dez anos, durante os quais exerceu o cargo de programadora do Festival de São Francisco. Depois voltou à França e a Cannes. Dirige, além disso, a Rencontre Internationale de Cinéma à Paris
evento anual que ocorre desde 1995. Aliás, o vencedor da primeira Rencontre foi o brasileiro "Terra Estrangeira", de Walter Salles e Daniela Thomas. O mais recente ganhador, o deste ano, foi o longa "Ressources Humaines", do francês Laurente Cantet.
Quais os critérios para um filme ser convidado para a Quinzena dos Realizadores? Marie não faz segredo: "Eles devem ser ousados quanto à temática e inventivos no que diz respeito à linguagem cinematográfica", disse na beira da piscina do Hotel Nacional, em Brasília. Ela dá alguns exemplos recentes desse tipo de filme, na verdade um artigo raro no batido mostruário cinematográfico internacional: o japonês "M/Other, Virgin Society", de Sofia Coppola, filha de Francis Ford Coppola, e last but not least, "A Bruxa de Blair", o independente teen que se tornou megassucesso de público em muitos países. Ela ri: "Quando passou na Quinzena, A Bruxa de Blair era apenas um filme independente que ninguém conhecia; aliás, eu fiquei muito preocupada com ele, pois achava que as pessoas não iriam gostar das ousadias formais que trazia."
Sobre o cinema brasileiro contemporâneo, Marie se confessa um tanto desinformada. A culpa é do precário sistema de distribuição dos filmes nacionais, que raramente são exibidos no exterior. Claro, ela conhece o grande sucesso internacional recente, que é "Central do Brasil", de Walter Salles. Mas não fica no óbvio. Conhece e gosta - com restrições - de "Carlota Joaquina, a Princesa do Brasil", de Carla Camurati, título que marca o início da retomada de produção do cinema nacional. "Acho que ele tem um tom barroco pronunciado e depois se desenvolve da maneira a mais tradicional possível; gosto do barroquismo inicial e não do resto", analisa.
Viu também "Outras Estórias", que Pedro Bial adaptou de Guimarães Rosa, e faz ressalvas: "Penso que começa de maneira interessante, mas depois se torna mais fraco e repetitivo." E fala maravilhas de um curta-metragem que exibiu quando era curadora em São Francisco, o antológico "Ilha das Flores", de Jorge Furtado. "Até hoje amigos dos Estados Unidos me telefonam pedindo cópias desse curta, que influenciou outros realizadores e já foi até imitado em muitos filmes", conta.
Mas ela admite que apesar de algumas honrosas exceções o cinema brasileiro mais influente é mesmo o dos anos 60. "Gláuber Rocha e os outros diretores do Cinema Novo são referência até hoje", constata. Ela relembra um fato. Quando São Francisco comemorou 40 anos de festival, fizeram uma enquete perguntando a dez cineastas participantes quais eram as suas principais influências. Gláuber foi citado nada menos que duas vezes. Uma por Coppola, que escolheu "Deus e o Diabo na Terra do Sol" como o filme que mais o havia influenciado em sua carreira de diretor. A outra pela diretora Lourdes Portillo, que fez comentário semelhante a respeito de "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro".
Ilhas de invenção - Marie sabe que filmes como esses, e cineastas inventivos como Gláuber, são raros, senão inexistentes no mundo de hoje. Onde ela localiza as ilhas de invenção no conservador cinema do fim de milênio?
Em primeiro lugar, no Irã, principalmente pelas obras de Abbas Kiarostami e Moshen Makhmalbaf. Mas o novo aparece também em alguns cineastas da China e do Japão. E, surpreendentemente, na Rússia, "apesar do colapso econômico do país com seus inevitáveis reflexos sobre o cinema". Mas também na França, com jovens como Bruno Dumont e seu recente "A Humanidade", e Emmanuel Finkiel, com seu primeiro longa, "Voyage".
São exceções de inventividade num mundo medíocre. Se algum brasileiro acha que também rema contra a corrente do cinemão oficial, pode se candidatar a uma vaguinha nesse clube exclusivo que será a primeira Quinzena dos Realizadores dos anos 2000.





