Brasília, 29 (AE) - A seleção dos curtas-metragens em 35 milímetros ofereceu algumas boas atrações. Duas delas vêm do Rio Grande do Sul e são "Deus É Pai, de Allan Sieber, e "Três Minutos", de Ana Luiza Azevedo. O primeiro é gozação pura: Deus e Jesus Cristo procuram uma terapeuta familiar, tentando resolver alguns conflitos entre eles, que já duram 2 mil anos. O filme é criativo, irreverente, barato, no melhor espírito anárquico dos novos realizadores. "Três Minutos" é um filme de sensibilidade feminina, dirigido com talento e rigor. Esse é o tempo em que se pode tomar a decisão que vai mudar uma vida - ou duas, já que a decisão é a de uma mulher que precisa encarar o dilema de ir embora e deixar o homem que ama ou ficar com ele e frustrar-se. Bonito e delicado.
Outro curta que surpreendeu foi "Passadouro", do paraibano Torquato Joel. Uma lição de síntese narrativa e direção, que impressionou favoravelmente a selecionadora da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, Marie-Pierre Macia, que esteve em Brasília. Com movimentos de câmera precisos e econômicos, Joel reflete sobre os ciclos de ocupação de uma localidade perdida em seu Estado, das ancestrais inscrições rupestres, à vida rústica do camponês até a chegada de uma antena parabólica, objeto estranho jogado naquele fim de mundo.
Outros curtas merecem menção: "Rota de Colisão", de Roberval Duarte, de "Janela para o Cinema", de Quiá Rodrigues, e o hard "Texas Hotel", de Cláudio Assis. O primeiro pela agilidade narrativa, o segundo pela beleza lírica e a inventividade com que declara seu amor pelo cinema. O terceiro pela radicalidade de abordagem do mundo contemporâneo. No entanto, "Texas Hotel" foi, na prática, o único filme intensamente vaiado pelo público do Cine Brasília. A platéia, em geral receptiva, não tolerou a sua descrição de um cortiço sórdido no centro do Recife. Um naturalismo selvagem, que flerta com o teatro do absurdo ou da crueldade. Filme duro, porém necessário.
Na bitola 16 milímetros, também houve boas opções, infelizmente exibidas na execrável sala do Espaço Cultural 508 Sul. A sala é quente como todos os fogos do inferno, os banheiros fétidos como os de uma rodoviária de beira de estrada. Mas os filmes era bem interessantes. A começar por "Bela e Galhofeira", de Paulo Halm, cotidiano de um casal em busca do sentido da vida. Mas devem ser lembrados também "História de Amor em 16 Quadros por Segundo", de Amin Stepple e Fernando Spencer, "Uma Nação de Gente", de Tibico Brasil e Margarita Hernández, "Bubula, o Cara-Vermelha", de Luiz Eduardo Jorge, e "Um Filme de Marcos Medeiros", de Ricardo Elias.

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