Seis corações na valise
Os músicos do Baron Samedi têm um show montado, com sua espinha dorsal definida. Isso é uma coisa. A outra é quando sobem ao palco e entram em contato com o público – conforme a energia que recebem muda-se o desenho do espetáculo. Em Curitiba foram duas horas de inteiro fascínio. ‘‘A assistência influi naquilo que estamos fazendo’’, disse o líder do grupo, Michel Boiton.
Criado há dez anos, com sua atual formação há cerca de quatro anos, o grupo trabalha com o improviso a partir de temáticas ora jazzísticas, ora do tambor oriental, e também respeitando a música das tradições orais da África, do Japão, da Coréia, América do Sul e Europa Central. Já a bela coreografia que desenvolvem no palco é intuitiva. ‘‘Temos consciência dos próprios gestos’’, resumiu Boiton.
Dizem os artistas que o Baron Samedi não é um conjunto hermético, fechado entre seus integrantes. Segundo definem ele é o ‘‘encontro entre músicos’’. A definição, porém, é mais profunda, pois para que esse encontro se efetive, há o aspecto filosófico e espiritual, além do artístico. Ali não está somente um sexteto instrumental. ‘‘Somos uma família’’, argumentam.
Esta é a primeira vez que o grupo vem ao Brasil. Depois de passar pela Bahia, São Paulo, Brasília e Curitiba, o roteiro incluiu o Rio de Janeiro. Eles aproveitaram a viagem para manter contato com as manifestações populares locais, e para isso tiveram o apoio da Aliança Francesa de cada cidade. Em São Paulo encontraram-se com a bateria da Gaviões da Fiel e em Salvador com Olodum e Ileaiê.
Daquilo que ouvem, extraem inspirações para suas composições. Todos contribuem de alguma forma para a produção, e o final é um só: a personalidade do Baron Samedi. Ali está a sua marca, aplaudida em vários países do mundo. Jean-François Baez explica a beleza tosca dos tambores, misturada à sonoridade da gaita de foles e do seu instrumento, o acordeom: ‘‘A música é como uma valise vazia. À medida que se vive, ouvindo os sons mais variados, o cantar dos passarinhos, essa valise vai se enchendo. Antes, porém, a valise carrega o coração de cada um de nós, os músicos.’’ (Z.C.L.)

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