Segunda-feira de cinzas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 03 de setembro de 2018
Célia Musilli <br> Editora da Folha 2 
A segunda-feira (3) foi de cinzas para os brasileiros inconformados com a notícia do incêndio que atingiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, no início da noite de domingo. Com a mesma perplexidade com que receberam a notícia do incêndio que afetou o Museu da Língua Portuguesa, em 2015, muitos se sentiram atingidos não só pelas chamas, mas pela extinção daquele que era considerado um dos acervos históricos e culturais mais importantes do mundo. Mais que isso, todos se sentiram tocados pelo descaso que tem afetado grandes centros da cultura nacional e local. Afinal, aqui mesmo em Londrina, a lembrança do incêndio do Teatro Ouro Verde, em 2012, ainda assombra, mesmo que tenha sido reconstruído em detalhes.

As informações chegam aos poucos e, ainda na segunda-feira, os responsáveis não conseguiam dimensionar tudo o que se perdeu. O diretor do Museu Nacional, Alexandre Kellner, disse à imprensa que "evitaria ser leviano para estimar o que foi perdido e que só daria esta informação após fazer um levantamento minucioso." A única certeza é que o Meteorito de Bendegó, encontrado no sertão brasileiro em 1974, resistiu ao fogo. Mas peças que representavam o orgulho de parte da nação preocupada com a cultura e a preservação da memória, viraram cinzas, bem como as certezas para mensurar tudo o que se perdeu de arte, educação e ciência.
O palácio que abrigava o Museu foi moradia da Família Real no Brasil. Em 1818, D.João VI inaugurou o Museu Real que funcionou primeiramente no Campo de Santana, no Rio, antes de se mudar para o palácio na Quinta da Boa Vista, cujo bicentenário se completou este ano. Em 1826, Dom Pedro I deu ao Brasil sua primeira coleção de arte egípcia que cresceu ao longo do século 19, depois, o local recebeu a atenção de Dom Pedro II, que ganhou fama como exímio apreciador e colecionador de artes. Quando dona Tereza Cristina casou-se com Pedro II, trouxe da Europa uma coleção de arte greco-romana. Todas essas preciosidades desapareceram no incêndio do último domingo. Bem como as coleções de etnologia indígena - em palha e barro que desapareceram no fogo - registros de línguas desaparecidas, artefatos de antigas culturas latino-americanas, incluindo a dos incas, e uma das peças mais preciosas: o primeiro fóssil humano brasileiro encontrado no interior de Minas Gerais, no início dos anos 1970, denominado Luzia.
Fora isso, perderam-se inventários de fauna - moluscos, aracnídeos e insetos, por exemplo - cujos registros são essenciais para o estudo da vida e do meio ambiente na América do Sul.
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Esse conjunto imensurável de peças e registros históricos, culturais e biológicos recebiam do governo federal, desde 2014, a verba irrisória de R$ 520 mil por ano - feita por meio de repasse pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O montante foi reduzido drasticamente nos últimos anos à medida em que os problemas de estrutura e preservação do museu aumentavam com infiltrações, umidade, mofo, gambiarras elétricas e previsíveis curto-circuitos. Enquanto isso, o Fundo Eleitoral Público, no ano das eleições, foi fixado em mais de R$ 2 milhões para que políticos prometam, mais uma vez, o que nunca chegam a cumprir. Um recurso de R$ 21 milhões do BNDEs, destinado à restauração do Museu Nacional, foi aprovado em junho deste ano, mas estava embargado devido aos impedimentos para liberação de verbas em ano eleitoral.
Em 2014 e 2016, o Rio de Janeiro, cidade-sede da Copa do Mundo e das Olimpíadas, recebeu recursos vultosos para a construção de equipamentos esportivos, alguns deles sem uso depois da festa. A cidade também viu em 2015, a inauguração do Museu do Amanhã - uma obra luxuosa projetada pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava. Pena que a preservação da memória e a cultura da cidade do Museu do Amanhã, como de todo o Brasil, pareçam não ter futuro, tendo em vista tanto descaso e uma tragédia sem conserto.


