fotos: Maranúbia BarbosaRaso e límpido, o rio só tem um inconveniente: as pedras escorregam como sabãoEsqueça os Véus de Noiva e as Cachoeiras da Fumaça que existem em muitos rios brasileiros. Também não precisa ficar suspirando pelas Cataratas do Niagara. Guardadas as devidas proporções (ou não), os rios paranaenses exibem cachoeiras para todos os volumes d‘água.
Por ter seu território basicamente em áreas de planalto (52% estão acima dos 600 metros de altitude), os rios paranaenses têm altos e baixos. Um belo exemplo das partes altas se encontra a cerca de 150 quilômetros de Londrina. É o rio Lajeado Liso, que passa por Sapopema e segue tortuoso por vales recobertos em grande parte pelo que resta da mata tropical dos planaltos do interior. Em sua trajetória pelas encostas do Terceiro Planalto, o rio desliza por rochas basálticas de origem vulcânica e despeja caudalosas torrentes em deslumbrantes cachoeiras. A mais bela de todas tem um nome sugestivo: Salto das Orquídeas, destino de ecoturistas, amantes da natureza ou simplesmente aventureiros a procura de novos ares.
Estação ecologia Sapopema tem aproximadamente 10 mil habitantes. A viagem até à cidade é rápida. Saindo de Londrina, são cerca de duas horas numa estrada bem conservada. O relevo é muito alto e em alguns pontos as nuvens acompanham o traçado da estrada, razão pela qual é preciso dirigir com bastante atenção. Apesar da preocupação, o visual é fantástico. Fotógrafos, amadores ou não, têm imagens de sobra para registrar.
Sapopema é uma típica cidade do interior: fiéis em trajes domingueiros na praça da matriz, ruelas de paralelepípedos irregulares, goiabeiras, pardais... Nem sombra de construções com mais de um andar. Sem celulares, sem buzinas, semáforos e congestionamentos, a cidade vive uma espécie de paz intermitente. Como todo paraíso tem seu lado oculto, lá você não encontra hotéis e restaurantes pomposos. Tem padaria, uma ou outra lanchonete despretensiosa e nada mais.




Bem baixas a princípio, as cachoeiras vão se avolumando até desabarem numa torrente assustadora.


Rota de ambientalistas, geógrafos e caçadores do paraíso perdido, o Salto das Orquídeas é fácil de se achar. Saindo de Sapopema, a estrada de 2,5 quilômetros é inteira calçada de pedras. A paisagem é bucólica como versos arcádicos. O gado pasta rente às cercas, que recebem em seus mourões as espécies mais variadas de pássaros silvestres.
Logo depois de uma curva acentuada, avista-se uma construção rústica. É o último vestígio da civilização: uma pequena lanchonete, bastante desfalcada de víveres, mas mantendo um bom estoque de refrigerantes. Mas ecoturista que se preza não vai ser apanhado de calça curta. Preferências gastronômicas à parte, é imprescindível não esquecer de levar alimentos, já que ninguém quer se aborrecer num lugar tão aprazível.
Banho frio Colocando em prática as lições do manual do escoteiro, é preciso armar a barraca antes de explorar a região. Depois de tomar o café feito no fogareiro de campista, é chegada a grande hora de descer o rio. O traje é fundamental: tênis emborrachado, agasalho de moleton, blusão impermeável, gorro de lã ou boné. Você está pronto para a caminhada. As surpresas começam nesse exato instante. Se você espera encontrar uma trilha margeando o rio pode esquecer. Não existe caminho que não seja por dentro do próprio rio. Nada de olhar as cachoeiras de longe sem molhar o calçado. Quem achar que a água está fria demais pode voltar para a barraca e se enfiar dentro do colchão de dormir.
Aventureiro velho de guerra não se deixa intimidar pela água em temperatura de oito graus. Não vai se assustar com qualquer ventinho congelante que sopra das margens e muito menos com a ausência do sol que demora a atingir o meio do rio. As altas árvores impedem os raios do sol de aquecer antes das dez horas, no mínimo. Porém, nada disso vai conseguir segurar alguém dentro da barraca. Está certo que é necessário uma boa dose de coragem para entrar no rio logo cedo. Mas logo depois que a caminhada começa você se anima.
A segunda surpresa vem logo a seguir. Se não andar com bastante cuidado você descobre logo porque o rio se chama Lajeado Liso. Raso e límpido, o rio só tem um inconveniente: as pedras escorregam como sabão. A dica para não cair é simples: basta descer as cachoeiras em dupla, um segurando o outro. O problema é quando um se desequilibra e leva o outro junto. Mas tenha certeza, você vai se divertir como nunca. Deixando de lado as brincadeiras, os tombos podem ser sérios se você não tomar cuidado. Uma outra dica válida: a descida não é recomendada para crianças.
Escalada nas pedras Rio abaixo você vai se deparando com as quedas d‘água. Bem baixas a princípio, as cachoeiras vão se avolumando até desabarem numa torrente assustadora. E tudo isso acontece com você ali, bem pertinho, ouvindo o estrondo das águas. Para que a visão seja mais privilegiada, escale as rochas até chegar no ponto mais alto. Todo esforço não será em vão. As cachoeiras caem de uma altura de mais ou menos 30 metros formando uma nuvem branca de fumaça. O segredo para se chegar até no topo das rochas está em agarrar nos troncos, cipós e raízes dos arbustos e árvores que ladeiam o paredão.
Em cima das pedras, é impossível não ficar algum tempo deitado, de cara para o sol. Depois de fotografar as cachoeiras de todos os ângulos possíveis e imagináveis, é hora de por o pé nas rochas que disputam espaço com a água cristalina. Muita beleza ainda o espera mais abaixo do leito do rio, mas nada se equipara ao paredão que contorna a última cachoeira.
Medindo aproximadamente 80 metros, a gigantesca encosta é impressionante. De frente para ela fica o mais alto de todos os saltos. Despencando de mais de 40 metros, a água forma uma piscina nas pedras. Chegar à esta cachoeira não é fácil e exige muito sangue frio. Para ir até o fim é preciso segurar firme nas pontas de rochas e o mais importante: não olhar para baixo.
Orquídeas Com a água pelas canelas, se equilibrando em corda bamba, você só tem uma curiosidade: afinal de contas, por que as cachoeiras se chamam Salto das Orquídeas? Ali pelo meio do percurso, quando você já não sabe qual catarata é mais bonita, ei-las, que surgem. As orquídeas, que emprestam o nome ao salto estão por toda parte. Selvagens, elas enlaçam suas raízes frágeis na pedra nua e ali ficam, esperando a primavera para abrir suas inflorescências. Nessa época do ano, apesar delas não estarem floridas, o espetáculo não é menor.
Com esse rio, essas cachoeiras, uma vegetação exuberante, exemplares de plantas que vão de araucária até orquídeas selvagens, só fica estressado quem quer. A imagem do Salto das Orquídeas é um bálsamo. Agora você já sabe que o caminho das pedras leva ao nirvana.

mockup