DivulgaçãoBrenda Blethyn (em primeiro plano) ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes e concorreu ao OscarSe depender da Academia, o Oscar-96 já está definitivamente enterrado. Aliás, para a comunidade hollywoodiana o ano passado poderia até sumir do mapa, não fosse pelos providenciais milhões de ‘‘Independence Day’’ e ‘‘Twister’’. Como ninguém da grande indústria teve competência para gerar produções moldadas pelos padrões oscarizáveis ou, trocando em quinquilharias, como nenhum grande estúdio mostrou-se competente para o reconhecimento planetário durante a auto-celebração anual, o vexame se propagou aos quatro ventos de Beverly Hills. Na impossibilidade de passar por cima, ignorar, cancelar ou adiar todo o processo, das nominações às estatuetas, a solução foi fazer vista grossa, armar-se de fair play e convidar para a festa alguns alienígenas. Um da Austrália (‘‘Shine’’), outro produto da ascendente globalização (‘‘O Paciente Inglês’’), um terceiro do ressuscitado gênio britânico (‘‘Segredos e Mentiras’’) , um único e modesto da comunidade doméstica (‘‘Jerry Maguire’’) e até um anti-establishment que em anos de safra abundante jamais seria cogitado (‘‘Fargo’’). Como ‘‘O Paciente...’’ vestiu o comportado prêt-à-porter ditado pela passarela da maison Hollywood, apesar do título discutível de independente, aconteceu aquela constrangedora orgia de prêmios que se viu. E o grande sacrificado da noite acabou sendo ‘‘Segredos e Mentiras’’, que em maio do ano passado saiu do Festival de Cannes com o prêmio máximo, além do troféu de melhor atriz a Brenda Blethyn. É tempo de conferir, agora em vídeo, o melhor filme lançado em 96.
Melodrama cool Em Londres, a jovem negra Hortense, de 27 anos, algum tempo depois da morte da mãe adotiva, decide encontrar a mãe de sangue, que a deu em adoção quando ela ainda era um bebê. As coisas se complicam quando a moça descobre que sua mãe é branca, e que tem outra filha natural, de 20 anos. Mas nada é tão complicado assim, até se completar o círculo familiar. Singular, enganosamente simplista, ‘‘Secrets and Lies’’ surpreende pela audácia, ao mesmo tempo em que ser apresenta melodramático, cool , ordinário. Diante das situações propostas, era até convidativo um roteiro-manifesto, na linha anti-racista ou de estudo psicológico padronizado, ou ainda fortemente marcado pelo social, já que para isso se alinhavam todos os ingredientes, a começar pelo décor planejado como reflexo exterior de cada personagem.
Mas o diretor Mike Leigh foge da banalização. Ele contempla as debilidades, os caprichos e outras lacunas de seus personagens. Observa com certa dose de pessimismo, mas sem amargura; com sensibilidade e com generosidade também, mas sem complascência, humor exagerado ou ironia incontida, assegurando sempre um delicado equilíbrio para o conjunto. Os seres humanos que no filme promovem uma espécie de ajuste de contas entre si parecem estar sempre nos lembrando de nossa irresistível necessidade de reafirmar quem somos e de onde viemos. E de que é tão doloroso quanto necessário criar e manter laços, reconstituir e recriar novos laços.
Atestado de vitalidade do atual cinema inglês, ‘‘Secrets and Lies’’ é bom de ser visto em família, todos juntos no sofá, ao pé do fogo - se tívessemos a tradição do clima e da lareira - domingo no lugar do ‘‘Fantástico’’. Mas atenção: o único efeito especial de que dispõe é sua mais absoluta transparência, daí não se recomendando a espíritos mais afoitos.

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