Sedução tropical
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de setembro de 1998
Fábio Dobbs Cult Press 
A vida do pintor francês Paul Gauguin sempre foi enigmática. Com tudo para se tornar um bem-sucedido funcionário da bolsa de valores e já com uma família de quatro filhos, Gauguin largou tudo, virou mendigo e se mudou para a ilha tropical do Taiti. Desvendar essa trajetória de extremos foi o trabalho do biógrafo David Sweetman, no livro Paul Gauguin, Uma Vida (644 páginas/R$ 60), da Editora Record. A obra pretende ser minuciosa e busca até o tio-avô do pintor, que foi o último vice-rei do Peru, para explicar a paixão do artista pelos temas tropicais.
Com tantos detalhes, Paul Gauguin, Uma Vida não é apenas uma biografia, mas também uma narrativa dos fatos históricos que aconteceram no período em que o artista viveu. Incluindo os problemas da independência da colônia espanhola do Peru, que colocou mais uma vez os parentes latinos de Gauguin no poder, a guerra entre a Prússia e a França, quando Gauguin servia na marinha francesa, e o boom econômico da França no final do Século XVIII. O universo do artista ainda conta com nomes que se tornaram expoentes da cultura mundial, como Claude Monet, Auguste Renoir, Vincent Van Gogh, Claude Debussy e Camile Pissarro. Influências que estão presentes na obra do pintor na fase pós-impressionista, antes de a arte dele ser definida como simbolista.
Os principais temas dos quadros de Gauguin refletem principalmente os 17 últimos anos de vida, quando já estava vivendo numa cabana na ilha do Taiti. São donzelas aborígenes e paisagens tropicais que coloriram as telas e a vida do pintor. Um dos quadros mais famosos é De Onde Viemos? Quem Somos Nós? Para Onde Vamos?, título que serve também para o autor dividir o livro em três partes.
Na primeira delas, Sweetman fala das influências que o pintor sofreu. Os tempos da infância no Peru, quando morou na casa do tio-avô Pío Tristã Moscoso e teve contato com a arte indígena da região. Aline e Clovis Gauguin saíram da França com os filhos Paul e Marie, fugindo do governo ditatorial de Napoleão III. Clovis morreu na viagem e a família teve de ficar sobre a tutela do tio-avô. Gauguin só retornaria a França aos 7 anos para viver do minguado salário de costureira da mãe. A família só conseguiu se estabelecer quando Gustave Arosa conheceu Aline e os dois se tornaram amantes. Gustave, um rico investidor francês, foi o responsável pelo emprego de Gauguin na Bolsa de Valores. Antes de trabalhar na bolsa, Gauguin passaria seis anos como marinheiro a bordo da fragata Jérome Napoleão, do irmão de Napoleão Bonaparte III. Nesse período, Sweetman deixa algumas lacunas sobre a vida do pintor. Como os seis meses em que a fragata esteve ancorada num porto inglês e o verdadeiro cargo de Gauguin na bolsa de valores, depois que ele se desligou da firma de Gustave Arosa.
A obra e a vida do pintor é analisada com mais detalhes na parte Quem Somos Nós?. Nela, o autor se dedica a tratar a definição da personalidade artística do pintor. Uma fase de transição em que ele larga o emprego para viver só da arte. Gauguin até consegue colocar um quadro na badalada exposição de Paris, mas suas obras não têm grande saída. Aos 37 anos, sem dinheiro e largado pela esposa e os filhos, Gauguin não tem mais nada a perder e decide se aventurar numa viagem para o Taiti, no Oceano Pacífico.
Nessa parte do livro, Sweetman busca referências do próprio Gauguin para narrar a história, principalmente o lado sexual. À noite, minha mulher procurava minhas carícias. Ela sabe que tenho medo dela e tira vantagem disso, descreve Gauguin no livro Avant e AprSs, numa das raras tentativas de documentar suas memórias. Assim, o autor destaca os momentos finais da vida do artista. Cercado de ninfetas aborígenes e viciado em drogas, Gauguin morreu aos 54 anos de sífilis na distante ilha de Marquesa, no Oceano Pacífico.
Apesar de abrangente nos detalhes da vida do artista, o livro deixa a desejar nas ilustrações. Ao todo são 16 páginas ilustradas com apenas uma única foto de Gauguin entre as dos amigos e família, além do reduzido número de nove telas reproduzidas.


