Nos dias de hoje a morte violenta se tornou algo banal. De modo geral, não causa mais espanto. Pessoas matando pessoas virou elemento do cotidiano. Até mesmo casos de filhos que assassinam os próprios pais tornaram-se casos comuns, simples notas em manchetes de jornais. No passado as coisas eram diferentes. Matar o pai (parricídio) ou matar a mãe (matricídio) era um verdadeiro tabu. Uma aberração que deixava um mal-estar em toda a sociedade. Além da indignação, provocava uma certa curiosidade pelo fato de ninguém entender o motivo que impulsionava tamanha tragédia.
O escritor russo Fédor Mikhailovitch Dostoiévski (1821 -1881) partiu da idéia do parricídio para criar sua obra-prima, o romance ‘‘Os Irmãos Karamázov’’. Nele, o autor desenvolveu uma intrincada complexidade psicológica para os personagens. Algo muito próximo da complexidade psicológica dos homens de carne e osso.
‘‘Os Irmãos Karamázov’’ foi o derradeiro livro escrito por Dostoiévski em seus últimos e doentes três anos de vida. Clássico da literatura universal, a obra acaba de ser republicada pela Editora Ediouro. Trata-se da mesma tradução (de Natália Nunes e Oscar Mendes) publicada no início da década de 60, porém com uma vantagem sobre edições anteriores: foi impressa em letras que dispensam o uso de lupa para leitura.
Em ‘‘Os Irmãos Karamázov’’, Dostoiévski reúne todas as qualidades e características de sua literatura. Existe um certa unanimidade entre os teóricos nesse sentido. Partindo de um parricídio, apresenta a dualidade como algo intrínseco ao ser humano, um componente da alma no sentido universal. Uma constatação serena e irreversível que, pela sua natureza, se apresenta como uma eterna tortura.
No romance, Dostoiévski narra a história da família Karamázov – o pai, Fiódor, e seus filhos Ivan, Aliócha e Dimítri. Fiódor é um rico senhor que leva uma vida desregrada, repleta de mulheres e bebida. No primeiro casamento, após o nascimento do filho, assiste à morte da esposa. Ao invés de cair na melancolia, sente-se feliz por estar novamente livre para se dedicar à libertinagem. A criança passa a ser criada por parentes distantes. No segundo casamento, após o nascimento de mais dois filhos, assiste novamente à morte da esposa. Novamente as coisas se repetem. Os filhos passam a ser criados por parentes e Fiódor volta ao seu ambiente natural de bebedeiras e orgias.
Os três filhos, Ivan, Dimítri e Aliócha, crescem de maneira independentes, cada um em lugares distintos e personalidades específicas. Quando adultos, os três voltam para a casa do pai, numa espécie de reencontro. Aí começam os problemas. As características psicológicas dos quatro, pai e filhos, entram em choque. Com o conflito armado, entra em jogo um quarto filho, o bastardo Smierdiákov. Rejeitado por Fiódor, ele vive como um humilde e humilhado empregado da casa.
Ivan é uma intelectual ateu, Dimítri um idealista que age por impulso, Aliócha um religioso repleto de esperanças, Smierdiákov um operário oprimido e epiléptico. Fiódor, o patriarca, zomba de todos. Os conflito familiares assumem maiores proporções quando Dimítri e Fiódor se apaixonam pela mesma mulher.
Um belo dia, Fiódor aparece morto, assassinado. As evidências levam a um único culpado, o filho Dimítri, que havia jurado de morte o pai em várias situações. Na realidade o patriarca foi morto pelo filho bastardo, Smierdiákov, que acaba se enforcando oprimido pela culpa. Por outro lado, Ivan também se sente culpado por ter induzido Smierdiákov, com seus discursos, a eliminar o pai. Três mentes atormentadas pela possível culpa e, ao mesmo tempo, livres do peso do paternidade. Cabe ao cristianismo de Aliócha, o filho puro, a função de estabelecer uma ponte entre os tormentos.
À primeira vista ‘‘Os Irmão Karamázov’’ pode parecer aquilo que chamamos hoje de romance policial. Ledo engano. A obra é um desenho multifacetado do ser humano em suas infinitas divisões – um ser que procura a unificação de si mesmo mas que está fadado a viver com o cerne da dualidade no interior da alma. O assassinato do patriarca Karamázov, por exemplo, ocorre apenas na página 440. Na realidade, Dostoiévski utiliza um crime para falar de algo muito maior.
Embora o escritor russo tenha cultivado princípios cristãos em toda sua existência, em sua literatura trabalhou com o outro lado da moeda, o ateísmo. Em ‘‘Os Irmão Karamázov’’, Dostoiévski colocou suas idéias sobre a fé de maneira mais intensa. Nas palavras do personagem Aliócha, por exemplo, deixa claro que: ‘‘Para o realista, não é a fé que nasce do milagre, é o milagre que nasce da fé.’’
Narrando a história dos Karamázov, apresenta as forças bipolares do bem e do mal (ou de Deus e do diado). As dúvidas sobre cada uma delas, e suas trajetórias distintas e similares, são abordadas dentro de uma complexidade psicológica de fôlego. O autor mostra que a humanidade ainda não conseguir solucionar o impasse entre o bem e o mal mas luta deseperadamente para compreendê-lo.
Vale ressaltar que o ritmo narrativo de ‘‘Os Irmãos Karamázov’’ segue um trajeto diferente da literatura produzida atualmente. Exige do leitor a disposição de apreciar um estilo narrativo que, além de ter origens culturais russas, caminha pelas estradas da lentidão. O que ocorre na mente dos personagens no processo individual de existência, apresenta-se como o verdadeiro sentido do romance.
Em seus escritos, Dostoiévski deixou registrado que o último trabalho seria um verdadeiro testamento literário. Palavras dele: ‘‘Agora, tenho às costas os Karamázov, que é preciso terminar bem. Importa fazer deles uma obra de Arte, e é uma coisa difícil e arriscada, uma coisa fatal: deve colocar o meu nome muito alto, consolidá-lo; de outro modo, não haverá mais esperança alguma.’’ O fato é que morreu alguns meses após concluir o romance, em 28 de janeiro de 1881.
•O s Irmãos Karamázov – De Dostoiévski, Editora Ediouro (telefone: (21) 560-6122 / internet: www.ediouro.com.br), tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes, introdução de Otto Maria Carpeaux, 743 páginas, R$ 38,80.

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